A recente crise entre Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que expôs divergências dentro do principal partido da direita, ganhou um novo ingrediente com a divulgação da Pesquisa Meio/Ideia.
Além de medir os cenários para a eleição presidencial de 2026, o levantamento dedicou uma série de recortes ao chamado "efeito Michelle", reforçando o espaço político conquistado pela ex-primeira-dama em meio às discussões sobre quem deve liderar o campo bolsonarista caso Jair Bolsonaro permaneça fora da disputa.
O levantamento destaca que Michelle deixou de ser apenas uma figura de apoio e passou a reunir capital político próprio. Um dos indicadores é o reconhecimento espontâneo do eleitorado: 15,4% dos entrevistados a citaram como a mulher mais poderosa do Brasil. Para o fundador do Ideia, Maurício Moura, "não é trivial ser apontada espontaneamente por 15,4% do eleitorado como a mulher mais poderosa do Brasil. Um sinal forte do seu peso político".
A divulgação ocorre após o desgaste entre Michelle e Flávio ganhar repercussão nacional. A tensão teve início após vídeos divulgados pela ex-primeira-dama criticando articulações políticas envolvendo o senador. Desde então, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, reconheceu publicamente que os dois ainda não voltaram a conversar e afirmou que trabalha para reconstruir essa relação, classificando Michelle como uma liderança "importantíssima" para o partido.
Disputa eleitoral
Enquanto analisa o peso da ex-primeira-dama, a pesquisa também mostra que a polarização entre PT e bolsonarismo segue predominando.
No cenário estimulado, Lula ampliou a vantagem e alcançou 40,4%, contra 32% de Flávio Bolsonaro. Ronaldo Caiado (PSD) tem 4%. Romeu Zema (Novo), 2,5%, Aécio Neves (PSDB), 2%. E Renan Santos (Missão), também 2%.
Em um eventual segundo turno contra Flávio Bolsonaro, o presidente venceria por 45% a 40%.
Gênero
Um dos principais recortes da pesquisa está na divisão por gênero. Entre os homens, Flávio Bolsonaro lidera com 46,3%, enquanto Lula registra 39,2%. Já entre as mulheres, o cenário se inverte: o petista chega a 50,4%, contra 34,2% do senador do PL.
Para o jurista e analista político Melillo do Nascimento, os números mostram que a disputa presidencial deixou de ser apenas uma polarização ideológica e passou a depender da capacidade dos candidatos de dialogar com grupos específicos do eleitorado. "O dado mais importante talvez não seja a vantagem de Lula no agregado, mas o tamanho da diferença entre homens e mulheres. A pesquisa sugere que existem praticamente duas eleições ocorrendo ao mesmo tempo." Segundo ele, mais da metade do eleitorado brasileiro é formada por mulheres, o que torna esse segmento "o principal campo de batalha da eleição de 2026".
Na avaliação do especialista em risco político e professor do Ibmec Brasília, Eduardo Galvão, o levantamento também ajuda a explicar por que Michelle ganhou protagonismo nas discussões internas do PL. "Michelle Bolsonaro possui atributos que ajudam a ampliar o diálogo com parte do eleitorado feminino, especialmente entre mulheres evangélicas e conservadoras." Ele pondera, no entanto, que a pesquisa recomenda cautela ao diferenciar popularidade de competitividade eleitoral, destacando que "Michelle fortalece a estratégia do campo conservador, mas ainda precisa demonstrar que consegue converter esse prestígio em intenção de voto suficiente para disputar a Presidência em igualdade de condições."
Para ambos os especialistas, a pesquisa tende a ampliar o peso político de Michelle dentro das negociações do PL. Embora os números não indiquem, por si só, uma mudança na posição de Flávio Bolsonaro como principal nome testado pelo instituto, eles reforçam que a participação da ex-primeira-dama será cada vez mais estratégica para a direita, sobretudo na tentativa de reduzir a resistência junto ao eleitorado feminino, considerado um dos grupos decisivos para a sucessão presidencial de 2026.
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