Silêncio de Bolsonaro prolonga impasse no PL

Sem manifestação do ex-presidente, aliados seguem divididos sobre a disputa ao Senado no Ceará, enquanto a direção nacional busca pacificar o partido

Por Beatriz Matos

Bolsonaro mantém silêncio sobre crise envolvendo Michelle e Flávio

A crise desencadeada pelos vídeos de Michelle Bolsonaro ganhou novos desdobramentos nesta segunda-feira (29). Enquanto o Partido Liberal (PL) tenta conter os desgastes internos provocados pelo embate entre a ex-primeira-dama e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o pré-candidato à Presidência cumpriu agenda internacional na Argentina, onde se reuniu com o presidente Javier Milei.

Antes da viagem, porém, Flávio conversou com o pai, Jair Bolsonaro. Ainda assim, o ex-presidente segue sem indicar publicamente qual posição adotará sobre a disputa política que divide aliados no Ceará.

Nos bastidores do PL, a avaliação é de que apenas uma manifestação de Bolsonaro poderá encerrar o impasse. Integrantes da legenda aguardam uma carta ou outro gesto do ex-presidente indicando quem terá seu apoio para disputar uma das vagas ao Senado pelo Ceará. O silêncio mantém indefinidas as articulações locais e alimenta a disputa entre os grupos que apoiam a vereadora Priscila Costa (PL-CE) e o deputado estadual Pastor Alcides Fernandes (PL-CE).

A crise começou após Michelle afirmar que defendia posições previamente alinhadas com Bolsonaro e criticar a condução das articulações no estado. Ela passou a apoiar publicamente Priscila Costa, enquanto o presidente estadual do PL, o deputado federal André Fernandes (PL-CE), trabalha pela candidatura do pai ao Senado dentro da composição construída ao lado do pré-candidato ao Governo do Ceará, Ciro Gomes (PSDB-CE).

Um dos principais alvos das críticas de Michelle, Pastor Alcides reagiu em vídeo publicado nas redes sociais. O parlamentar classificou as declarações da ex-primeira-dama como "infelizes", negou que a aliança com Ciro tenha sido construída sem conhecimento de Bolsonaro e afirmou que toda a negociação ocorreu de forma transparente e com aval do ex-presidente. Também questionou a defesa feita por Michelle da candidatura de Priscila Costa, sugerindo que a divergência estaria relacionada à disputa pela vaga ao Senado.

Enquanto isso, a direção nacional do PL tenta reduzir a temperatura da crise. O presidente da legenda, Valdemar Costa Neto, antecipou o retorno ao Brasil e deve se reunir com Michelle nesta terça-feira (30). Para quarta-feira (1º), Flávio articulou um encontro com lideranças do PL Mulher, com expectativa de participação da ex-primeira-dama.

Argentina

Em meio ao cenário de tensão, Flávio manteve a agenda internacional e participou, em Buenos Aires, da Latin America Chairmen's Conference, promovida pela comunidade judaica.

Durante a viagem, encontrou-se com Javier Milei, que publicou uma foto ao lado do senador e escreveu que "vem aí a maré azul para o Brasil". Flávio agradeceu a recepção e afirmou esperar que a chamada "maré azul" avance por toda a América Latina.

Em discurso no evento, o senador elogiou os governos conservadores da região, criticou a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e afirmou que pretende intensificar a comunicação pelas redes sociais, retomando um modelo de transmissões ao vivo semelhante ao adotado por Jair Bolsonaro. Enquanto isso, no Brasil, o partido segue à espera da palavra do principal líder do bolsonarismo para tentar encerrar a disputa que tem narrativa no Ceará e passou a atingir a estratégia nacional da legenda para 2026.