Correio da Manhã
Política

PF e PGR cobram respostas que Vorcaro ainda não entregou

Autoridades consideram nova proposta de delação insuficiente e mantêm cobrança por provas, documentos e esclarecimentos sobre o destino do dinheiro

PF e PGR cobram respostas que Vorcaro ainda não entregou
Dark Horse está previsto para estrear em 11 de setembro Crédito: Divulgação

A margem de manobra de Daniel Vorcaro está cada vez menor. Enquanto Polícia Federal (PF) e Procuradoria-Geral da República (PGR) demonstram resistência à nova proposta de delação apresentada pelo empresário, investigadores já discutem quais serão os próximos passos caso as negociações fracassem mais uma vez. Entre as possibilidades está o reforço, junto ao Supremo Tribunal Federal (STF), do pedido para que Vorcaro deixe a prisão domiciliar e retorne ao Complexo da Papuda, hipótese que, segundo relatos de investigadores, provocou preocupação nos bastidores da defesa.

O cenário marca uma mudança importante na condução das tratativas. Se nos primeiros meses o foco estava na disposição de Vorcaro em colaborar, agora o debate passou a girar em torno da qualidade das informações oferecidas. A avaliação de autoridades envolvidas no caso é que as sucessivas propostas apresentadas até aqui continuam sem responder a perguntas consideradas centrais para o avanço das investigações.

Valor

Nos bastidores, investigadores afirmam que a nova proposta repete informações já conhecidas pelas autoridades e pouco acrescenta ao que foi descoberto ao longo da apuração. Um dos exemplos usados pela própria PF envolve o caso do filme “Dark Horse”, produção ligada ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

Segundo relatos de bastidores obtidos pela reportagem, Vorcaro teria confirmado movimentações financeiras relacionadas ao fundo Havengate, mas sem apresentar esclarecimentos considerados essenciais. Questionado sobre o destino dos recursos, teria afirmado não saber se os valores foram utilizados exclusivamente para financiar a produção audiovisual. O fundo Havengate, é um fundo de investimento privado sediado no estado do Texas, nos Estados Unidos, e está relacionado às investigações da PF.

A resposta está longe de satisfazer os investigadores. Uma das linhas de apuração busca justamente identificar para onde o dinheiro foi destinado e se parte dos recursos pode ter sido utilizada para custear despesas do ex-deputado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

Para o jurista e analista político Melillo do Nascimento, esse tipo de impasse costuma surgir quando a colaboração deixa de entregar informações inéditas. “O problema de uma colaboração premiada não é convencer a opinião pública. É convencer os investigadores de que você está entregando aquilo que eles ainda não sabem.”

Segundo ele, quando começam a surgir novas versões, complementações e sucessivas tentativas de acordo, o valor estratégico da negociação tende a diminuir. “Em delação premiada, informação é moeda. E moeda repetida vale cada vez menos.”

Dinheiro

A dificuldade em rastrear a circulação dos recursos é apontada como um dos principais obstáculos para o avanço das negociações. “Quando uma investigação envolve recursos milionários, a pergunta central deixa de ser apenas ‘quem autorizou’ e passa a ser ‘para onde o dinheiro foi’”, afirma o especialista Melillo.

A avaliação coincide com a posição adotada pela PF e pela PGR. Nesta terça-feira (9), advogados de Vorcaro foram informados de que a proposta apresentada não despertou interesse da Procuradoria. O entendimento é semelhante ao da Polícia Federal: faltam detalhes, documentos, provas e informações capazes de ampliar as linhas investigativas já existentes.

Além do caso “Dark Horse”, novas frentes continuam surgindo. Também nesta terça-feira, a deputada federal Erika Kokay (PT-DF) e o líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (PT-SC), apresentaram uma notícia de fato à Polícia Federal pedindo investigação sobre Karina Ferreira da Gama, ligada ao Instituto Conhecer Brasil e à produtora responsável pelo filme. O documento cita suspeitas de superfaturamento, lavagem de dinheiro, uso de empresas de fachada e possível desvio de recursos oriundos do Sistema S.

Pressão

Apesar das negativas, as negociações não foram encerradas. O problema é que o tempo passou a jogar contra Vorcaro. “Uma nova rejeição costuma produzir um efeito político e processual relevante. Ela sinaliza que os investigadores acreditam que ainda existe informação importante sendo retida ou que a colaboração oferecida não compensa os benefícios pretendidos”, explica Melillo.

Na prática, segundo ele, cada nova recusa reduz o poder de negociação do investigado. Isso porque a investigação continua avançando por outros caminhos, com análises financeiras, cooperação internacional, perícias e novos depoimentos.

A avaliação do especialista é direta: “Se houver uma nova rejeição, como tudo indica, o sinal é bastante claro: a casa já caiu e dificilmente será reconstruída nos termos inicialmente imaginados.”

Para investigadores, o ponto central permanece o mesmo desde o início das tratativas. Mais do que ouvir relatos, as autoridades querem provas capazes de explicar quem recebeu os recursos, como eles circularam e o que ainda não foi revelado. Nas palavras de Melillo do Nascimento, “quando a casa começa a cair, não basta mostrar a planta do imóvel. Os investigadores querem saber quem construiu, quem financiou, quem morava lá e para onde foram os móveis antes do desabamento”.