"O bobo tem oportunidade de ver as coisas que os espertos não veem". Este trecho da crônica 'Das vantagens de ser bobo', de Clarice Lispector, faz refletir sobre a pureza de ser quem se é em meio à contemporaneidade. Às vezes, ser taxado de bobo não é ruim, é um sinal de que ainda há esperança em meio à turbulência, como pontua a crônica: "Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os veem como simples pessoas humanas".
Essa construção é o fio condutor do espetáculo "Dança Boba", da companhia Ateliê do Gesto, que fará uma apresentação única no Centro Cultural Sesc Quitandinha, na sexta-feira, 30 de outubro, às 20h. A obra explora a escuta, a atenção, a relação e a invenção em tempo real. A direção é do coreógrafo e bailarino Daniel Calvet, que também está em cena ao lado dos intérpretes-criadores João Paulo Gross, Thaís Kuwae e Isabel Mamede.
Conforme os criadores, as cenas são montadas a partir de jogos de improvisação, e a obra reúne três intérpretes que desenvolvem uma dança única a cada apresentação. No meio dessa catarse, buscando a originalidade, a crônica de Clarice é lida em cena pelos artistas. "Ela dialoga com a proposta do espetáculo de levar humor, leveza e ludicidade ao projeto", considera o grupo.
Os artistas destacam um trecho do texto, "Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas, não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil". Outra parte também é citada, na qual Clarice sintetiza a importância da autenticidade e de acreditar na própria visão sobre o mundo, "Os espertos ganham dos outros. Em compensação, os bobos ganham a vida".
Além disso, a trilha sonora acompanha a energia do espetáculo, com músicas como "Mais que nada", entre outras. "A trilha vai modulando os jogos que a gente faz e também funciona como uma espécie de linha condutora, uma canção engata na outra e vai conduzindo a narrativa", diz o diretor Daniel Calvet.
Segundo o grupo, assim como a música, a iluminação costura toda a montagem por meio de lanternas utilizadas pelos três artistas. "Vamos manipulando as lanternas para criar ambientes onde as cenas acontecem. Como tem uma estrutura de jogo, tem essa brincadeira bem aberta com as lanternas", conta Calvet.
O projeto
O espetáculo "Dança Boba" estreou em 2018. A partir das apresentações, concorreu a diversas premiações, recebendo três indicações ao Prêmio Cesgranrio de Dança, na categoria Melhor Bailarino, para Daniel Calvet e João Paulo Gross, e na categoria Destaque em Desenho de Produção Cênica, para o espetáculo.
Dando sequência ao caminhar do projeto, o espetáculo integrou a 9ª edição do Paralelo 16 (2018), participou do Dança em Trânsito, no Rio e em Brasília (2019), e fez temporada em Goiânia, com ações para escolas públicas, oficinas e apresentações (2019). E seguiu com o trabalho, explorando diversas esferas.
O Ateliê do Gesto
A companhia, conforme expressam os fundadores, Daniel e João, é uma plataforma de criação artística dedicada ao corpo e à consciência do movimento, que nasceu em 2015, em Goiânia. A companhia tem como foco a pesquisa da dança e da consciência corporal.
Nessa ótica, o trabalho dos artistas se concentra no corpo, pois o corpo fala. Essa afirmação está presente em cada parte da obra, pois cada movimento representa um significado entrelaçado com a visão de mundo de cada "bobo".
Menu