Petropolitano

Instituto Vira-Mundo completa dez anos

Uma ex-aluna que virou jovem aprendiz, uma recreadora prestes a se formar professora e uma bordadeira de 61 anos contam como a fazenda entrou na vida delas e de suas famílias

Instituto Vira-Mundo completa dez anos
Em dez anos, o Instituto formou uma rede de mais de 75 produtores, artistas, expositores e empreendedores Crédito: Divulgação

Daniela Medeiros de Melo tinha 11 anos quando começou a frequentar as aulas de literatura do contraturno escolar do Instituto Fazenda Vira-Mundo, no Brejal, em Petrópolis. Era 2019, a turma tinha 12 crianças e ela quase sempre voltava para casa com um livro emprestado. Sete anos depois, Daniela cursa Psicanálise, trabalha como jovem aprendiz na equipe administrativa do espaço e acompanha de perto o irmão caçula, Raul, de 13 anos, que hoje ocupa a mesma turma de contraturno por onde a irmã começou.

Essa história ajuda a entender o que a Vira-Mundo construiu desde dezembro de 2016, quando a primeira Feira de Produtores reuniu agricultores, artesãos e agentes culturais numa antiga fazenda da região. Em dez anos, o Instituto formou uma rede de mais de 75 produtores, artistas, expositores e empreendedores, e só em 2025 recebeu cerca de 11.700 pessoas em atividades de educação, cultura, arte e meio ambiente. O aniversário foi comemorado no último fim de semana, com 30 atividades gratuitas.

Por trás dos números há muitas histórias. Três delas ajudam a contar essa década: as de Daniela Medeiros, de 19 anos, Isabela Leandro, de 26, e Rosa Maria Correia, de 61. Elas chegaram à fazenda em épocas e por portas diferentes, mas têm algo em comum: nenhuma veio sozinha. Cada uma acabou trazendo a família junto.

Do outro lado da oficina

Quando Daniela entrou no contraturno, o projeto estava no começo. A coordenadora pedagógica Melissa Lamego conduzia as aulas de literatura, arte e as caminhadas ecológicas. Daniela gostava de romance e aventura, e até hoje lembra de "Ela disse, ele disse", de Thalita Rebouças, entre os títulos daquela época.

O vínculo com a fazenda não se desfez com o tempo. Em 2023, Melissa a convidou para ser voluntária, mas, aos 15 anos, ela ainda não tinha idade para isso. O convite foi renovado e, em 2025, no último ano do ensino médio, Daniela passou a dar apoio às oficinas de literatura. Como estudava em tempo integral, das 7h às 16h, só conseguia ir às quartas-feiras, o único dia em que saía da escola ao meio-dia.

"Acho que, por ter vivido isso como criança, ainda vejo tudo como algo encantador, do mesmo jeito que via quando tinha 11 anos", conta.

Em 2026, Daniela foi contratada como jovem aprendiz pela Vira-Mundo, onde vai passar dois anos dando apoio à equipe de gestão. "A Vira-Mundo é um universo de possibilidades, um mundo de portas abertas", diz. O irmão, Raul Avelino Medeiros, está no 7º ano e frequenta o contraturno. "Vejo que as crianças do projeto desenvolvem habilidades que nem sabem que estão desenvolvendo. E vejo isso acontecendo com ele."

Daqui a alguns anos, Daniela se imagina formada e especializada em psicopedagogia, trabalhando com projetos sociais voltados a crianças que precisam de acompanhamento psicológico e não têm acesso a ele. "A Vira-Mundo moldou muito do que eu sou hoje: a leitura, a dicção, até a convivência. É terapêutico estar em um ambiente onde podemos ser nós mesmos", comenta.

A professora do Nilton Vieira

Isabela Leandro chegou à Vira-Mundo em 2022, aos 22 anos, no momento em que o programa Arte e Descoberta ampliava o atendimento às crianças. Foi apresentada à fazenda por Maria Sônia Pinho, assessora de cultura, que procurou a mãe dela, Patricia Leandro, então representante comunitária do Loteamento Nilton Vieira, uma das comunidades do Brejal com as quais o instituto trabalha. A ideia era aproximar os moradores do projeto. Isabela, que cuidava de crianças desde os 14 anos, acabou contratada como recreadora.

Naquele ano, ela se preparava para o Enem e pensava em cursos ligados à assistência social, como forma de ajudar a própria comunidade. Foram as coordenadoras pedagógicas Melissa Lamego e Nilceleia Baggio que, observando o trabalho dela com as crianças, sugeriram Pedagogia. "Já tinha sido uma possibilidade, mas, sabendo dos desafios da profissão no Brasil, eu não queria criar expectativas", lembra. O dia a dia com os pequenos e uma pilha de cartinhas de agradecimento fizeram o resto. Hoje, Isabela está no último período da licenciatura em Pedagogia na UERJ. "Sou muito grata às pessoas e a este lugar, que me ajudou a me encontrar como profissional. E compreendo que, através da educação, continuo cumprindo o sonho de ajudar a minha comunidade."

A família veio atrás. O irmão, Gabriel Junior Leandro, cuida da churrasqueira nas barraquinhas da festa junina, ao lado da esposa, Tainá Ferreira, e da irmã, Maria Caroline Leandro. Maria Caroline faz treino funcional e leva o filho, João Davi, ao Arte e Descoberta. As tias Maria de Lourdes Pereira e Aparecida Bras Paixão participam da Roda de Bordado, e primos e vizinhos se reúnem no futebol das sextas-feiras à noite. Patricia, a mãe, faz funcional, yoga e zumba, frequenta cursos, o consultório odontológico e o salão, e atua como voluntária. "Ouso dizer que ela é a maior mobilizadora da comunidade", diz a filha. "A Vira-Mundo se tornou uma extensão da minha casa."

Isabela também virou ponte entre a fazenda e o Nilton Vieira. Muitos vizinhos não conheciam o projeto e achavam que aquele espaço não era para eles. Depois da formatura, ela quer seguir estudando, com pós-graduação e outras formações. "Sem estudar eu não fico", brinca. O plano mais próximo é abrir turmas gratuitas de alfabetização de jovens e adultos para moradores da região.

Ponto por ponto

Quem chega pela primeira vez à Roda de Bordado da Vira-Mundo costuma ser encaminhado para a cadeira ao lado de Rosa Maria Correia. Aos 61 anos, ela borda desde os 12 e é quem ensina os primeiros pontos a quem nunca segurou uma agulha. "Pego um pedaço de pano e vou ensinando", conta. Algumas das alunas de Rosa hoje bordam por conta própria e vendem as peças. "Fico muito orgulhosa de ver que elas aprenderam e estão ganhando o seu dinheirinho."

O primeiro ponto que Rosa aprendeu foi o de cruz, ensinado por Dona Angela Katsumoto, sua primeira professora. Os outros vieram com Dona Laila e Dona Ana, no tempo em que o Ateliê Arte em Comum funcionava na Fazenda da Juriti. Desses pontos saem os canteirinhos, as lavouras e as almofadas bordadas que o grupo produz até hoje.

Foi Leonardo Fragoso quem trouxe o ateliê para a Vira-Mundo. É ele quem organiza a produção do grupo, risca à mão os desenhos sobre os quais as bordadeiras trabalham e leva as peças para feiras e outros pontos de venda. Com a mudança, Rosa passou a frequentar a fazenda com regularidade, levando as filhas, Tainá e Thayane, ainda pequenas, para pintar painéis com ela.

As duas aprenderam a bordar com a mãe e também fazem parte do ateliê, mas trabalham de casa. Rosa leva os bordados delas para a fazenda, onde Leonardo registra a produção de cada uma em uma pasta própria. A irmã, Neusa, a acompanha em quase tudo: depois que parou de trabalhar, passou a frequentar mais o ateliê e vem aprendendo os pontos que ainda não conhecia.

Fora do ateliê, Rosa é conhecida pelo pastel, que faz desde a organização das feiras.