As apostas online deixaram de ser apenas uma questão de comportamento individual e passaram a representar um problema econômico com reflexos sobre o consumo, o crédito e o comércio. Estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da USP (Made-USP) estima que as bets retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025, enquanto as perdas líquidas das famílias chegaram a R$ 62,5 bilhões. O impacto ganhou dimensão ainda maior em 2026: diante do avanço do endividamento e da perda de renda, o tema entrou na agenda do governo e do Congresso e passou a ocupar espaço na campanha eleitoral. Para a CDL Petrópolis, a discussão precisa considerar não apenas os riscos individuais das apostas, mas também o dinheiro que deixa de circular na economia real.
O estudo parte de uma perda líquida de R$ 62,5 bilhões das famílias para as plataformas de apostas — diferença entre o dinheiro apostado e os valores recebidos de volta. Para o presidente da CDL Petrópolis, Cláudio Mohammad, o impacto precisa ser observado também sob a perspectiva da circulação de renda.
"Quando o dinheiro é gasto no comércio, ele não para na compra. Ele paga salários, fornecedores, aluguel, transporte, impostos e volta a circular na economia. Quando uma parcela dessa renda é desviada para as apostas, esse efeito multiplicador diminui. É um dinheiro que deixa de movimentar uma cadeia inteira de atividades", afirma.
A preocupação ganha outra dimensão diante dos efeitos sobre a saúde financeira dos consumidores. Um estudo realizado com dados de movimentação bancária e transações via Pix identificou que, nos 12 meses seguintes ao início das apostas, a proporção de pessoas inadimplentes ficou, em média, 20% maior entre os apostadores. O estudo também apontou redução de aproximadamente 16% no limite de crédito disponível para essas pessoas.
"Para o comércio, não existe consumo sem renda disponível e sem crédito saudável. Se o consumidor compromete uma parcela crescente do orçamento com apostas, ele reduz sua capacidade de comprar, parcelar e planejar. Isso acaba chegando ao lojista, especialmente aos pequenos negócios, que dependem do consumo das famílias", explica Cláudio.
A dimensão do fenômeno também aparece em pesquisa da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA), segundo a qual 17% da população economicamente ativa realizou apostas online em 2025. O levantamento mostra ainda que a busca por ganhos rápidos em momentos de necessidade financeira está entre as principais motivações dos apostadores.
Na avaliação da CDL, o desafio não é apenas discutir a regulamentação das plataformas, mas ampliar a educação financeira e estimular uma relação mais consciente da população com sua renda. "O consumidor precisa perceber que renda não é apenas aquilo que entra no bolso, mas também aquilo que conseguimos preservar e transformar em consumo, patrimônio e qualidade de vida. O comércio depende de uma economia em que o dinheiro circule e gere oportunidades. Por isso, esse debate interessa a toda a sociedade", aponta Cláudio Mohammad.
Apostas on-line nas agendas das campanhas eleitorais
A dimensão alcançada pelo problema também colocou as bets no centro da agenda política de 2026. O tema já aparece na propaganda eleitoral e entre as pautas apresentadas por candidatos ao Senado, enquanto governo federal e Congresso discutem novas medidas para restringir publicidade, patrocínio e acesso às plataformas, além de propostas que estabelecem limites para depósitos e ampliam a proteção a grupos vulneráveis.
Pesquisas de opinião ajudam a explicar a força que o assunto ganhou na campanha: levantamentos recentes apontam elevada rejeição às apostas e mostram que o endividamento das famílias e seus impactos financeiros passaram a integrar as preocupações dos eleitores. Para a CDL Petrópolis, o fato de as bets terem chegado simultaneamente à agenda econômica, social e eleitoral demonstra a dimensão do problema e reforça a necessidade de uma discussão responsável sobre seus efeitos no consumo, no crédito, na renda das famílias e na economia.
"Independentemente de posições políticas, existe uma questão econômica concreta que precisa ser enfrentada. Quando uma família perde capacidade de consumo, isso repercute no comércio, nos serviços e nos empregos. O debate eleitoral pode ajudar a trazer o tema para o centro da discussão, mas precisamos olhar para além da eleição e encontrar soluções que protejam a renda das famílias e preservem a circulação de recursos na economia", analisa Cláudio Mohammad.
Novas regras desde julho
As empresas de apostas esportivas online, conhecidas como bets, passaram a enfrentar regras mais rígidas para a divulgação de seus serviços. Em julho, o Ministério da Fazenda publicou uma portaria com novas regras para a publicidade do setor, com o objetivo de aumentar a proteção dos consumidores e alertar a população sobre os riscos relacionados às apostas.
Entre as medidas estão a inclusão de mensagens de advertência nas peças publicitárias e restrições a estratégias de marketing. As empresas também ficam proibidas de apresentar as apostas como forma de investimento ou de ganho fácil de dinheiro, além de não poderem usar influenciadores, especialistas ou comentaristas para incentivar o público a apostar.
As regras fazem parte das medidas adotadas pelo governo para ampliar a fiscalização do setor e combater a atuação de empresas de apostas irregulares no país.
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