Os quilombos são comunidades tradicionais formadas por pessoas negras que passaram por um processo de resistência territorial, social e cultural no período escravocrata no Brasil. É nesses espaços que se reúnem os saberes e tradições comuns, como forma de memória e resguardo cultural. Essas estruturas guardam a força dos anciões que lutaram para fundar espaços de resistência e dignidade, o que reforça a importância de resguardar essas terras ancestrais. Esse movimento não é fácil, porém a luta dos quilombolas está presente diariamente, como demonstra o manifesto do Quilombo da Tapera, que expressa que "Quilombo não é conceito, nem marca", repudiando o uso indevido da palavra por organizações que não veem a importância que ela carrega.
"A Comunidade Quilombola de Petrópolis manifesta a indignação com o uso indevido do termo 'quilombo' por projetos, coletivos e organizações sem vínculo territorial, histórico ou ancestral com comunidades quilombolas", trecho da reivindicação. Segundo a diretora de Cultura do Tapera, Denise André Barbosa, a ação é em defesa de todos os territórios quilombolas do Brasil.
O motivo é a exploração da pauta sem uma construção, apenas para ganho de algo por parte de quem a utiliza. "O motivo é muito sério: estamos vendo o nome 'quilombo' sendo usado de formas banais por ONGs, coletivos e projetos que não têm vínculo nenhum com a ancestralidade, com a luta real que a gente vive todo dia, e isso dói. Apaga a nossa história, a nossa luta e a dos nossos ancestrais, que resistiram para a gente estar aqui hoje", ressaltou Denise.
Denúncia
A comunidade denuncia a apropriação da identidade quilombola sem compromisso com a luta pelo território, os silenciamentos das comunidades que resistem há séculos e o uso político e financeiro do termo "quilombo" sem diálogo ou respeito às comunidades.
Território ancestral
Em relação às denúncias, a manifestação traz afirmações sobre os territórios. "Quilombo não é conceito, nem marca. Quilombo é território, ancestralidade e resistência", expressam.
"Nossa terra, nossa cultura, nossa história não se negociam, a preservação da nossa memória é direito. Lutamos pelo território, tradição e vida com dignidade, enquanto estão se apropriando de nossas lutas, nossas lideranças estão tendo suas vidas ceifadas por lutar por nossos direitos", enfatiza.
A resistência da Tapera
De origem tupi, "Tapera" significa fazenda abandonada. A comunidade se formou a partir da luta de Dona Sebastiana Augusta da Silva Correia, que foi a matriarca fundadora do quilombo, e nasceu em 1847. Ela recebeu as terras de seu antigo senhor, Agostinho Corrêa da Silva Goulão. O Tapera era povoado por negros africanos puros e, atualmente, seus descendentes mantêm a história e os conhecimentos vivos.
Atualmente, a comunidade é formada por 27 famílias, que seguem lutando pela titulação das terras há mais de uma década. O processo administrativo no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), responsável pela titulação de 594,7364 hectares em favor da comunidade, foi aberto em 2013 e está sem avanços.
Em 2024, o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, em parceria com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e a Superintendência Regional no Rio de Janeiro, publicou o "Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID)" das terras do Tapera.
O documento reuniu estudos técnicos e informações históricas, antropológicas, cartográficas, fundiárias, agronômicas, geográficas e socioeconômicas, que permitem identificar os limites do território, visando à titulação coletiva da área em benefício das famílias. Também constatou que a comunidade da Tapera é composta por 27 famílias e destacou que o território identificado e delimitado possui área de 594,7364 ha e perímetro de 10.744,94 m. Após esta etapa, ainda existem outros trâmites para a região ser definitivamente titulada.
Em razão da demora, Denise André Barbosa salienta que a comunidade é vital e questiona a morosidade. "Pra dizer a verdade, não sei nem o que dizer dessa demora, só sei que é muito triste ter que ficar aguardando tanto tempo por um direito que já é nosso e, ainda por cima, ter que indenizar uma terra nossa por direito. Quem deveria ser indenizado somos nós, por tudo que os nossos antepassados passaram. Será que a sociedade sabe da importância das titulações quilombolas para o nosso planeta? Somos o pulmão dessa sociedade", disse.
Ela afirmou que a luta pela titulação não deveria ser obrigação só das comunidades quilombolas, mas de todos. "Quilombo é território, ancestralidade, história. Chega de silenciamento das comunidades que realmente resistem. Enquanto viver, ecoarei minha voz para proteger nossos territórios. As pessoas precisam saber o significado real do termo que carrega resistência e memória", ecoou Denise André Barbosa.
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