Correio da Manhã
Petropolitano

Dia Internacional da Mulher Negra celebra potências femininas

Celebração reforça trajetória e luta de heroínas esquecidas na história do Brasil

Dia Internacional da Mulher Negra celebra potências femininas
Julho das Pretas visa ampliar reflexão sobre os caminhos construídos até o momento Crédito: fotos: Agência Brasil

No cotidiano social brasileiro, a mulher negra é considerada a base social. Elas garantem o cuidado, gerenciam a família, comunidade e política. Não à toa, a filósofa e escritora Angela Davis expressa a força do grupo na frase "quando uma mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela". Na história, principalmente no Brasil, existem diversos exemplos de guerreiras que lutaram pela proteção do próprio povo.

Até hoje as mulheres negras se mantêm firmes em lutas que são invisíveis aos olhos da estrutura social, enraizada em cima de falsas feitorias da colonização. Uma data que simboliza o protagonismo, potência e resistência do grupo é o 'Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha', celebrado neste sábado, 25 de julho. A data foi instituída em 1992 e foi reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) como forma de reconhecimento e visibilidade das lutas dessas mulheres.

Celebração

Em território nacional, a celebração é uma homenagem a Tereza de Benguela, uma referência de resistência e força. Tereza, mulher africana, líder do Quilombo Quariter, também conhecido por 'Quilombo Grande na região do Mato Grosso', combateu a opressão colonial durante o período escravista, no século XVIII.

"Rainha Tereza liderou o quilombo com majestade e resiliência. Ela é um marco na história de meninas negras que a veem como heroína. Referência de força, inteligência e um amor pelos seus. Neste dia 25 comemoramos nossas lutas e resistência. Seguimos firmes e seguras de quem nós somos e buscamos referência nas heroínas do passado e nas do presente", disse a ativista Ariana Severino.

Rainha Tereza, como era conhecida, resistiu à escravidão até a morte. Histórias como essa existem em todo o território nacional. o problema é que as memórias são apagadas no processo de embranquecimento e construção das cidades e estados, como forma de negar ou minimizar o impacto dessas ações, nesse cenário, Petrópolis, a "Cidade Imperial, é boa em esconder e mascarar esses traços, porém existem muitas referências que lutaram pela a sobrevivência e dignidade dos seus.

Assim como "Rainha Tereza, Sebastiana Augusta da Silva Correia fundou um quilombo em meio a luta dos escravizados alforriados que viviam na fazenda Santo Antônio, em Petrópolis. A cidade tinha apenas quatro anos, quando a região hoje conhecida como 'Quilombo da Tapera' foi fundada. O Tapera era povoado por negros africanos puros e atualmente os descendentes mantém a história e os conhecimentos vivos, com muita lura.

A região passou por diversas tentativas de extinção, porém sobreviveram. As mulheres que lá vivem tiveram um papel fundamental nessa permanência. A diretora de Cultura do Tapera, Denise André Barbosa, ressalta que mulheres quilombolas são sinônimo de resistência ao declarar as forças das mulheres da comunidade na iniciativa do Segmento Afro de Cultura da cidade. Elas promoverão, neste mês, o "julho das preta" para dar visibilidade às vozes nesse período emblemático.

"O dia da mulher preta pra mim, que sou mulher Preta e Quilombola é um dia de luta e memória, pois me faz lembrar de todas as mulheres que seguraram os Quilombos de pé, cuidando, plantando, rezando, ensinando e lutando, resistindo para que eu pudesse chegar aonde eu cheguei, hoje reafirmando que o Quilombo da Tapera continua vivo por causa dessas mulheres, que lutaram pela terra e pelos nossos corpos, pois enfrentamos três violências juntas: racismo, machismo e o ataque ao território", expressou Denise.

Segundo o segmento, neste mês de luta, resistência e celebração, as redes sociais do projeto querem continuar sendo um megafone para as vozes das mulheres negras que movimentam a cena em solo petropolitano.

Com a iniciativa, o Presidente do Segmento, Guilherme Freitas, contou ao Correio o objetivo. "Enquanto conselheiro de cultura representante da Cultura Afro-Brasileira, acredito que nosso papel não foi apenas dar voz, porque as mulheres negras sempre tiveram voz. Nosso compromisso é garantir visibilidade para mulheres negras que transformam a nossa cidade em diversas áreas, especialmente na cultura, onde produzem, preservam saberes e constroem a identidade do nosso povo", contou.

A pedagoga Aline Andrade, vê a ação como memória, resistência e futuro. "Julho das Pretas é o mês que me convida a honrar quem veio antes de nós, celebrar quem resiste hoje e seguir construindo caminhos para que as próximas gerações encontrem uma sociedade em que nós mulheres negras sejamos respeitadas e dignas de ter uma vida mais justa, plural e comprometida com a equidade", enfatizou.