Por Leandra Lima
As mudanças climáticas estão no centro dos debates globais pelos impactos que têm causado aos diferentes territórios. Em 2026, o foco está no fenômeno climático chamado El Niño, que, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), se caracteriza pelo aumento da temperatura no Oceano Pacífico na linha do Equador. Esse aquecimento provoca mudanças na precipitação e nas temperaturas no Brasil.
No Rio de Janeiro, que se encontra em uma "zona de transição climática", esses efeitos estão sendo analisados com cautela pelo Centro Estadual de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais do Rio (Cemaden-RJ), pois o estado possui variabilidade climática espacial. Conforme o Cemaden-RJ, a atuação do fenômeno começou entre maio e julho, seguindo até o verão, podendo ser mais intensa entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027.
Com isso, a análise dos impactos difere entre as áreas litorâneas, Região Metropolitana, Baixadas Litorâneas, Norte e Noroeste Fluminenses, Costa Verde, Médio Paraíba e Região Serrana. "Estudos climatológicos indicam que os maiores totais anuais de precipitação ocorrem em áreas elevadas, podendo atingir cerca de 2.500 a 2.800 mm ao ano, enquanto regiões de baixada e de costa apresentam totais inferiores, entre aproximadamente 700 e 1.300 mm anuais (SILVA; DERECZYNSKI, 2014)", destaca trecho da nota técnica do Centro Estadual de Monitoramento.
Essa diversidade de cenários, de acordo com o estudo, faz com que a influência do El Niño sobre o Rio de Janeiro não possa ser compreendida apenas a partir de médias regionais amplas, levando à necessidade de considerar as características físicas de cada localidade.
Características
Uma das consequências do El Niño é o calor extremo, que pode apresentar riscos à saúde da população, especialmente de crianças, idosos e pessoas com comorbidades. De acordo com o relatório "Beat the Heat Brasil: Diagnóstico das Cidades Participantes", elaborado pelos movimentos COP30 Brasil Amazônia, Cool Coalition e Organização das Nações Unidas (ONU), 258 cidades em escala mundial participaram do levantamento, sendo 105 delas brasileiras. Destas, 53 identificam o calor como um risco extremo.
No levantamento, a maior concentração está nas regiões Nordeste e Sudeste. Cerca de 66% das cidades não começaram ou estão em fase inicial de planejamento para conter ou mitigar os impactos do calor. Além disso, 75% não utilizam dados sobre o calor para subsidiar decisões municipais, e a maioria não possui um departamento específico para tratar do tema.
As iniciativas promovidas pela maioria dos municípios são a construção de áreas verdes e ações de arborização. Porém, o relatório aponta que ainda faltam políticas eficazes que englobem outros sistemas.
"Infraestrutura verde lidera as iniciativas, enquanto o uso de dados, a priorização baseada em risco e soluções em edificações e compras ainda são limitados", ressalta o diagnóstico.
Esse cenário fez o estudo registrar que a principal barreira enfrentada pelas cidades são as restrições financeiras para esse fim.
"Restrições financeiras e de capacidade técnica predominam, com forte dependência de apoio externo para viabilizar ações", destaca o relatório.
Esse recorte se compara à reserva de menos de 0,50% do orçamento para prevenção de desastres na Região Serrana do Rio, conforme apontam os dados do "Terceiro Relatório de Cidades, Chuvas e Prevenção", da Frente Parlamentar de Prevenção às Tragédias e Moradia Digna da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). O levantamento também indica que o conjunto serrano possui o maior número de mortes por eventos climáticos extremos.
O Correio já trouxe, em outras ocasiões, esse dado, destacando que a cidade de Nova Friburgo investe apenas 0,053% do orçamento municipal na Secretaria de Defesa Civil. O percentual caiu drasticamente em 2025, passando de 0,25%, aproximadamente R$ 2.374.958,67 em 2024, para R$ 537.200,00, valor correspondente à porcentagem atual. Guapimirim é o segundo município que menos reserva recursos, destinando 0,17% da verba municipal para a pasta. No mesmo ano, o montante foi de R$ 859.099,99. Ambos os municípios não executaram as verbas.
Em 2024, Petrópolis previu investimento de R$ 3.656.598,22 em ações do órgão de Defesa Civil e preparação para emergências. O valor equivale a 0,25% do orçamento municipal. Desse total, foram liquidados R$ 1.174.615,99, representando 32,12% da previsão. A maior aplicação foi destinada à inovação tecnológica para monitoramento contínuo da Defesa Civil. Já Teresópolis separou 0,41% das contas públicas, cerca de R$ 3.966.200,00, executando R$ 2.730.671,75.
Monitoramento
A Região Serrana registra aproximadamente 1.364 mortes em razão de tragédias socioambientais, considerando o período entre 1991 e 2024. O conjunto serrano, especialmente Petrópolis, Nova Friburgo e Teresópolis, protagonizou um dos piores episódios em janeiro de 2011. O desastre foi considerado um dos maiores do Brasil, com cerca de 900 mortes em toda a Serra. Na ocasião, hospitais e outros serviços essenciais foram paralisados devido aos estragos.
Diante dessas fragilidades, o Cemaden-RJ ressaltou que, apesar da tendência de precipitação dentro da média para o trimestre de junho, julho e agosto de 2026, alguns municípios permanecem mais propensos e vulneráveis a deslizamentos.
"Nessas condições, mesmo chuvas de intensidade fraca podem atuar como fatores deflagradores de deslizamentos, além de possibilitarem, de forma localizada, a reativação de cicatrizes antigas e movimentos mais profundos em áreas geologicamente fragilizadas, sobretudo onde há elevada declividade, cortes e aterros irregulares, deficiência de drenagem e ocupação urbana vulnerável", destaca trecho da nota técnica.
Segundo o Cemaden-RJ, o protocolo de recomendação para mobilização de sirenes continuará respeitando os gatilhos deflagradores pré-estabelecidos para cada um dos 13 municípios: Petrópolis, Teresópolis, Areal, Nova Friburgo, Bom Jardim, Barra Mansa, Barra do Piraí, São Gonçalo, Cachoeiras de Macacu, Queimados, São João de Meriti, Duque de Caxias e Magé
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