Leandra Lima
Sobrecarga é o estado extremo de carga. Em resumo, ela é como se fosse um armário, onde pequenas, médias e grandes caixas são guardadas. Quando não há mais espaço, o correto a se fazer é dispersar algo que não cabe mais, porém os seres humanos, principalmente as mulheres, são ensinados a sempre achar um jeito de 'armazenar mais uma caixinha'. Nesse processo ocorre exatamente uma sobreposição de peso, que com o tempo passa a ser prejudicial, e nesse momento entra a reflexão de até onde suportar, como traz o espetáculo de dança "O que se cala", uma obra que busca romper os silêncios em torno do cotidiano feminino.
As mulheres foram ensinadas a satisfazer o patriarcado, ignorando as próprias vontades e desejos. Todo esse sufocamento criado pela estrutura social sustentada pelo machismo gera uma série de problemas relacionados à violência contra as mulheres em diversas camadas sociais. Esses aspectos são denunciados em cada passo da obra, que estará em cartaz no Teatro Imperial, neste sábado, dia 16, às 20h.
O despertar
"O que se cala" nasceu a partir do solo da diretora Letícia França, chamado "Pânico", que surgiu de uma identificação da dançarina com outras mulheres sobre a necessidade de suportar tudo em silêncio e acreditar que o sofrimento era inválido. "A partir dessas trocas, entendi que aquilo não era apenas uma experiência individual, mas uma realidade coletiva. Então surgiu a vontade de transformar em arte e poesia muitas outras vivências femininas: dores, violências, silenciamentos, medos, mas também força, resistência e união", contou.
O espetáculo, segundo a artista, representa um despertar, buscando alcançar mulheres que ainda estão presas no ciclo de violência que vivem. Nesse sentido, a articulação artística que transforma a dor em poesia vem para provocar reflexão e fazer enxergar a união e a potência de cada corpo feminino. "É um trabalho sobre voz, sobre memória e sobre romper silêncios. As vozes que foram caladas das nossas ancestrais hoje ecoam através dos nossos corpos. E agora podemos dizer basta!", exclamou.
Esse aspecto é considerado uma revolução, como expressa uma frase antiga e presente nos movimentos feministas: "Somos as netas das bruxas que vocês não conseguiram matar", reforçando a força das mulheres na atualidade, apesar dos graves quadros de violência ainda enfrentados e do aumento de casos de feminicídio, principalmente no Brasil, que teve um crescimento de 17% em relação ao penúltimo ano. A Justiça brasileira chegou a julgar cerca de 15.453 casos.
Além da denúncia
O cenário demonstra que a violência reverbera no corpo de maneiras muito profundas. "Ela aparece no medo, na tensão, no cansaço extremo, na ansiedade, no silêncio e até na forma como uma mulher ocupa os espaços. Muitas vezes o corpo fala aquilo que a voz ainda não consegue dizer", expressou a diretora.
Esse misto de emoções foi sentido no processo de ensaio. "Conforme começamos a compreender as mensagens trazidas pelo espetáculo, nós, bailarinas, passamos a nos identificar em muitas cenas. Em vários momentos nos percebíamos tensas, reflexivas, atravessadas pelas sensações que estavam surgindo ali", contou a diretora.
Nesse sentido, elas perceberam ainda que algumas violências acabam sendo reproduzidas sem percepção, porque já foram impostas. "E, de repente, ao ver ou reproduzir uma cena, vinha aquele pensamento: caramba… acho que era isso que eu estava vivendo naquele momento", pontuou.
Ao internalizar as descobertas, as bailarinas despertaram para uma consciência coletiva. "Ao mesmo tempo em que o processo nos fez revisitar dores já vividas, ele também trouxe autoconhecimento. Nos tornamos mais conscientes, mais atentas e mais fortes para reconhecer situações que antes talvez passassem despercebidas. O espetáculo não fala apenas sobre denúncia, mas também sobre despertar", relembrou.
Quebrando estereótipos
Diante desse cenário, a peça enfatiza que, mesmo atravessando muitas dores, a figura da mulher carrega muito mais do que esses sentimentos. "Porque durante muito tempo a mulher foi ensinada a suportar tudo em silêncio. Falar sobre as dores é importante para quebrar essa ideia de que precisamos aguentar sozinhas. E falar sobre a força é lembrar que, mesmo atravessadas por tantas violências e cobranças, seguimos existindo, criando, trabalhando, cuidando e resistindo", ressaltou Letícia França.
O corpo feminino guarda memórias que se entrelaçam com marcas emocionais, sociais e históricas. "Quando colocamos isso em cena, transformamos experiências individuais em algo coletivo, onde podemos nos reconhecer e nos fortalecer", disse a diretora.
A poesia do corpo
O corpo fala. Essa afirmação está presente em cada partida da obra "O que se cala", pois cada movimento representa uma quebra do silêncio imposto.
"As vozes que foram caladas agora ecoam através dos nossos corpos", afirmou Letícia.
Esse contexto torna a arte poderosa, pois ela toca em lugares que às vezes uma conversa não alcança. "Quando uma mulher se reconhece em cena, ela pode começar a entender o que sente, perceber que não está sozinha e encontrar força para reagir. O espetáculo é também um convite ao empoderamento e à união entre mulheres", ressaltou a bailarina.
A peça conta com o elenco formado por Letícia França, Carla Voigt, Ariane Beatriz, Renata Scagliuse, Jessika Lima, Laís Favero, Mariana Fernandes e Manuela Vieira. As coreografias são de Letícia França, Carla Voigt e Lucas Oliveira. Cenografia e figurino ficam por conta de Renan Miranda e Clara Rabello. A produção é do Ballet Letícia França, com apoio do Movimento Art & Cia. A direção é de Letícia França e a fotografia do Estúdio A2.
O espetáculo perpassa pelos estereótipos, denúncia e o despertar da força feminina.