EDITORIAL

Partidos árabes decidirão as eleições de Israel

Partidos árabes decidirão as eleições de Israel

A formação de uma coalizão de governo em Israel pode depender de um paradoxo político: os partidos árabes, historicamente marginalizados nas disputas pelo poder, podem se tornar decisivos para definir quem governará o país. Em um Parlamento fragmentado, no qual os blocos rivais enfrentam dificuldades para reunir a maioria necessária, esses partidos deixam de ser apenas representantes de uma minoria para assumir o papel de fiéis da balança.

A política israelense é marcada por uma combinação de divisões ideológicas, disputas religiosas e tensões nacionais. Os partidos árabes representam uma parcela importante da população do país, mas sua participação em coalizões governistas sempre encontrou resistência, sobretudo entre setores da direita e da extrema direita. O conflito com os palestinos, as diferenças sobre segurança e as desigualdades entre cidadãos judeus e árabes tornam essa aproximação politicamente delicada.

Ainda assim, a matemática parlamentar pode se impor às barreiras ideológicas. Quando nenhum bloco consegue alcançar sozinho a maioria, cada cadeira passa a ter um peso extraordinário. Nesse cenário, o apoio de legendas árabes, seja por meio da participação direta no governo, seja pela sustentação externa de uma coalizão, pode representar a diferença entre a vitória e o fracasso de uma negociação.

Essa possibilidade também revela os limites do sistema político israelense. A necessidade de construir alianças com partidos de diferentes orientações é uma característica do parlamentarismo, mas a resistência em reconhecer os representantes árabes como interlocutores legítimos evidencia contradições de uma democracia que precisa conciliar sua identidade judaica com a igualdade política de todos os seus cidadãos.

Para os partidos árabes, a eventual posição de força traz oportunidades e riscos. O poder de negociação pode abrir espaço para avanços em áreas como educação, saúde, habitação, segurança pública e combate à discriminação. Por outro lado, apoiar um governo sem garantias concretas de mudanças pode provocar desgaste entre seus eleitores e aprofundar divergências internas.

O desafio, portanto, não é apenas decidir quem ocupará o gabinete do primeiro-ministro, mas estabelecer quais compromissos serão assumidos e cumpridos. Uma coalizão construída exclusivamente para impedir a ascensão do adversário terá pouca estabilidade se não apresentar um programa minimamente consistente.

Se os partidos árabes se tornarem decisivos, Israel terá a oportunidade de transformar uma necessidade aritmética em um avanço democrático. O reconhecimento de que nenhuma parcela da sociedade deve ser excluída antecipadamente das negociações de poder seria um sinal relevante. Mais do que determinar o vencedor de uma disputa parlamentar, esses partidos poderão ajudar a definir os limites da representação política e a qualidade da democracia israelense.