O shopping popular destinado a abrigar os camelôs de Campinas tornou-se um exemplo da diferença entre anunciar projetos e transformá-los em realidade. Cinco anos após a apresentação de uma proposta que previa o investimento de R$ 128 milhões, o local continua sem obras e enfrenta ainda mais um retrocesso: o arquivamento do processo pela Prefeitura, diante da falta de documentos exigidos para a sua análise.
O episódio não é apenas um contratempo burocrático. É um sinal de que um projeto dessa dimensão não pode avançar à base de expectativas, sucessivas reformulações e prazos que se perdem pelo caminho. Se a iniciativa foi concebida para reorganizar o comércio informal e contribuir para a recuperação do Centro, a demora prolongada compromete justamente os objetivos que justificaram a sua apresentação.
É mister reconhecer que empreendimentos instalados em áreas históricas e ferroviárias envolvem exigências urbanísticas, ambientais e de preservação patrimonial. A isso soma-se também as exigências relacionadas à implantação do Trem Intercidades, que demandam estudos e adaptações… No entanto, tais questões não justificam o travamento do projeto.
A responsabilidade pela apresentação dos documentos e pela adequação da proposta cabe aos empreendedores responsáveis. À administração municipal, compete dar transparência aos procedimentos, orientar sobre as exigências legais e esclarecer quais condições precisam ser cumpridas para que a iniciativa possa prosseguir. Arquivar um processo por descumprimento de prazos pode ser administrativamente correto, mas não resolve o problema urbano que motivou a proposta do projeto.
Enquanto isso, os comerciantes continuam sem a estrutura prometida para exercer as suas atividades em condições mais adequadas. Campinas também permanece sem uma resposta para a ocupação dos espaços públicos e para a reorganização de áreas centrais que há anos enfrentam problemas de conservação, circulação e abandono. Não se trata de ignorar a importância do comércio de rua, o qual garante renda a muitas famílias, mas de conciliar o direito ao trabalho com o uso ordenado e democrático das vias públicas.
A revitalização do Centro exige mais do que intervenções pontuais e anúncios de grandes empreendimentos. Depende de planejamento integrado, preservação do patrimônio, segurança, manutenção urbana e soluções que considerem quem trabalha, mora e circula pela região.
Campinas precisa saber se o shopping popular é, de fato, viável nas condições propostas, qual será o caminho para sua execução e quais prazos podem ser cumpridos. Se o projeto original não se sustenta, é hora de apresentar alternativas realistas, em vez de alimentar indefinidamente uma promessa.
Cinco anos depois, a cidade não precisa de mais um anúncio. Precisa de respostas, responsabilidades definidas e decisões que saiam do papel. Afinal, revitalizar o Centro não pode continuar sendo uma promessa à espera de um endereço.
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