Ficar sem água por três dias não é um mero contratempo doméstico, é uma violação da rotina, da dignidade e das condições básicas de higiene de qualquer cidadão. Em Sumaré, moradores de diferentes bairros chegaram ao ponto de comprar galões e recolher água da chuva para enfrentar a falta de abastecimento. O cenário, revelado nesta semana, seria grave por si só, mas revela-se ainda mais preocupante quando se observa que esse tipo de ocorrência não é novidade.
No dia 31 de dezembro de 2025, a população também enfrentou torneiras secas, justamente na véspera do Ano-Novo. Em março deste ano, bairros voltaram a registrar interrupções e até alterações na cor da água. Em outubro, antes mesmo do episódio atual, comunicados da concessionária BRK já apontavam rompimentos de redes, manutenções emergenciais e oscilações no fornecimento. Na região do Jd. Maria Antônia, a sequência de ocorrências voltou a atingir os mesmos moradores.
A empresa atribuiu os problemas mais recentes a fatores distintos: aumento do consumo e baixa reservação, rompimento de tubulação e, na quarta (14,10), suspensão preventiva da captação, após a identificação de odor de diesel no manancial associado ao tombamento de uma carreta em Campinas. A interrupção preventiva para proteger a qualidade da água é justificável. Porém, ele não apaga as falhas de abastecimento que já vinham sendo registradas antes dessa ocorrência.
É justamente aí que está o problema: emergências podem acontecer, mas a repetição exige respostas para além de notas com previsões de normalização. Se o consumo elevado e os baixos níveis dos reservatórios são recorrentes, cabe avaliar com seriedade se a estrutura de produção, armazenamento e distribuição é suficiente para atender à população, sobretudo nos períodos de maior demanda. Frente a rompimentos sucessivos, é um dever esclarecer quais investimentos estão sendo feitos para reduzir a vulnerabilidade da rede.
Economia de recursos é responsabilidade coletiva, porém garantir a continuidade de um serviço essencial é obrigação de quem o presta. E, quando o fornecimento falha, o cidadão merece informação clara, atualizações confiáveis e medidas efetivas para minimizar os impactos.
O Executivo local e os órgãos reguladores não podem assistir, passivamente, à repetição do problema. É preciso fiscalizar, cobrar metas, verificar a capacidade operacional do sistema e dar transparência às providências adotadas. A concessionária, por sua vez, deve apresentar um plano consistente para reduzir as interrupções e demonstrar resultados.
Água não é favor e muito menos privilégio. É serviço essencial. Em Sumaré, a pergunta nem é apenas sobre quando a água vai voltar mas até quando os moradores terão de conviver com a incerteza de abrir a torneira e encontrar apenas ar.
Menu