O fim das apostas de quota fixa no Brasil, anunciado por meio de medida provisória, encerra um ciclo de rápida expansão das chamadas bets e abre outro desafio, menos visível, mas igualmente importante: cuidar das pessoas que desenvolveram comportamento problemático em relação ao jogo. A retirada das plataformas e da publicidade pode reduzir a oferta e a exposição às apostas, mas não apaga, de uma hora para outra, a dependência de quem já está doente.
A decisão vem acompanhada de uma medida que merece atenção do anúncio do Ministério da Saúde de que ampliará a busca ativa por apostadores contumazes, oferecendo acompanhamento e tratamento quando necessário. A estratégia já vinha sendo adotada desde dezembro de 2025 e deverá utilizar informações compartilhadas por órgãos públicos para identificar pessoas com comportamento de jogo problemático.
A iniciativa parte da constatação de que não se combate um vício apenas retirando do alcance o objeto da compulsão. A pessoa que passou a apostar de forma descontrolada pode ter acumulado dívidas, comprometido relações familiares, perdido renda, desenvolvido sofrimento emocional e organizado a própria rotina em função do jogo. Quando a plataforma desaparece, esses problemas permanecem.
Os números ajudam a dimensionar o tamanho da questão. Estudo citado pelo Ministério da Saúde estima em R$ 38,8 bilhões por ano o custo social associado às apostas no país. Desse total, R$ 17 bilhões estariam relacionados a custos decorrentes de mortes adicionais por suicídios. O valor representa uma conta além da financeira. Revela a dimensão humana de um problema que alcança famílias, serviços de saúde e sociedade.
Por isso, a busca ativa pode ter um papel importante. Nem toda pessoa que enfrenta dependência reconhece o problema ou procura espontaneamente um serviço de saúde. A própria dificuldade de admitir a perda de controle podem manter o indivíduo afastado do tratamento. Levar a possibilidade de ajuda até essas pessoas significa reconhecer que prevenção e cuidado precisam chegar antes que as consequências se tornem ainda mais graves.
O atendimento também não deve se limitar ao apostador. O Ministério da Saúde prevê o uso do Meu SUS Digital e de teleatendimentos. É uma medida necessária porque o vício em apostas raramente termina na pessoa que faz a aposta.
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