EDITORIAL

A cautela do consumidor com o corte da taxa Selic

A cautela do consumidor com o corte da taxa Selic

A redução da taxa Selic de 14% para 13,75% ao ano, decidida nesta quarta-feira (16) pelo Comitê de Política Monetária (Copom), é mais do que um movimento de 0,25 ponto percentual. É um sinal de que o Banco Central identifica espaço para aliviar, ainda que com cautela, uma das principais amarras da economia brasileira. O corte, o quinto consecutivo, ocorre em um cenário de desaceleração da inflação, que registrou deflação de 0,32% em agosto e acumulou alta de 4,22% em 12 meses.

Para o consumidor, entretanto, é importante não criar expectativas de uma queda imediata e proporcional dos juros cobrados pelos bancos. A Selic serve de referência para o crédito, mas empréstimos, financiamentos, cartão de crédito e cheque especial incorporam outros custos, como risco de inadimplência, despesas administrativas e margem das instituições financeiras. Por isso, o efeito no bolso tende a ser gradual.

Ainda assim, juros menores representam uma perspectiva positiva para famílias endividadas e empresas que precisam de crédito para reorganizar as finanças, investir ou ampliar a produção. Ao longo do tempo, a redução do custo do dinheiro pode estimular o consumo, facilitar investimentos e dar algum impulso à atividade econômica. É justamente esse equilíbrio entre estimular a economia e preservar o controle dos preços que torna a política monetária uma tarefa delicada.

O impacto também alcança quem não toma empréstimos. A queda da Selic reduz a remuneração de aplicações atreladas aos juros básicos, exigindo que investidores procurem alternativas para preservar seus rendimentos. Para quem depende da renda de investimentos conservadores, portanto, o movimento tem dois lados: o crédito pode ficar menos caro, mas a rentabilidade de determinadas aplicações também tende a diminuir.

Há, ainda, um alerta. A inflação continua acima do centro da meta de 3%, e o próprio Banco Central aponta incertezas externas, conflitos no Oriente Médio e os possíveis efeitos do El Niño sobre preços de commodities e alimentos.

O corte da Selic, portanto, deve ser recebido como uma oportunidade, não como autorização para uma nova onda de consumo financiado. Para o cidadão, pode significar algum alívio nas dívidas e melhores condições para reorganizar o orçamento. Para a economia, abre espaço para mais crédito, investimento e atividade. Mas o benefício será maior se vier acompanhado de responsabilidade fiscal, inflação sob controle e redução efetiva dos juros cobrados na ponta.

A queda de 14% para 13,75% é pequena na aparência, mas importante pelo que representa. O desafio agora é transformar uma decisão de política monetária em um alívio que chegue, de fato, ao bolso dos cidadãos brasileiros.