A cada eleição, a política se depara com uma nova realidade tecnológica. Se, no passado, rádio, televisão e, depois, os grandes portais de notícia transformaram a maneira de fazer campanha, hoje as redes sociais e a inteligência artificial ocupam papel central na disputa pela atenção do eleitor. São ferramentas poderosas, capazes de aproximar candidatos e cidadãos, ampliar o alcance de propostas e democratizar o acesso ao debate público. Mas, justamente por terem tamanho poder de influência, exigem também responsabilidade, cautela e senso crítico.
O problema começa quando a velocidade da informação passa a valer mais do que a sua veracidade. Nas redes, uma publicação falsa pode alcançar milhares ou milhões de pessoas antes mesmo que alguém tenha tempo de verificar se aquilo é verdade. Com a inteligência artificial, o desafio se torna ainda maior. Vídeos, áudios e imagens podem ser produzidos ou alterados de maneira cada vez mais convincente, criando situações que jamais aconteceram ou colocando na boca de alguém palavras que nunca foram ditas. O eleitor, diante de uma tela, nem sempre consegue distinguir o fato da manipulação.
Há ainda outro risco: acreditar que aquilo que aparece com frequência nas redes representa necessariamente a realidade das ruas. Não representa. Curtidas, compartilhamentos, comentários, visualizações e seguidores são indicadores de alcance e engajamento, mas não equivalem a votos. Um candidato pode ser extremamente popular em determinada plataforma e, ainda assim, não conseguir transformar essa popularidade em apoio nas urnas. Da mesma forma, alguém que tenha pouca presença digital pode possuir uma estrutura política, uma rede de apoiadores e uma força eleitoral que não aparecem nos números das redes.
O algoritmo também tem seu papel nessa distorção. Ao oferecer ao usuário mais conteúdos semelhantes aos que ele já consome, pode criar a impressão de que determinada opinião é majoritária, quando, na verdade, ela apenas se tornou predominante dentro daquela bolha. É possível passar horas navegando por uma realidade digital e sair dela com a sensação de que todo mundo pensa da mesma maneira. A urna, porém, não funciona dentro de uma bolha.
Nada disso significa que redes sociais ou inteligência artificial devam ser vistas como inimigas da democracia. Ao contrário. São instrumentos importantes e, quando utilizados de forma responsável, podem contribuir para uma campanha mais dinâmica, transparente e acessível. O que não se pode é transformar ferramenta em verdade absoluta.
A eleição continua sendo decidida por pessoas reais, com histórias, necessidades, convicções e dúvidas que não cabem integralmente em uma tela. Por isso, quanto maior for o poder da tecnologia, maior deve ser também a disposição para questionar o que ela apresenta. Em tempos de excesso de informação, talvez a atitude mais importante do eleitor seja justamente desacelerar: desconfiar do que parece perfeito, conferir antes de compartilhar e buscar diferentes fontes antes de formar uma convicção. É preciso lembrar que viralização não é sinônimo de verdade, assim como popularidade digital não é sinônimo de vitória eleitoral. A política pode ganhar novas ferramentas, os candidatos podem alcançar públicos que antes pareciam inacessíveis e as campanhas podem se tornar mais dinâmicas, mas nenhuma tecnologia substitui o exercício básico da cidadania: ouvir, comparar, questionar e decidir. No fim, a urna não registra curtidas, seguidores ou visualizações. Registra votos. E entre aquilo que o algoritmo escolhe mostrar e aquilo que o eleitor realmente pensa existe uma distância que nenhuma inteligência artificial deveria ser capaz de apagar.
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