EDITORIAL

O perigo silencioso do tabagismo entre jovens

O perigo silencioso do tabagismo entre jovens

Há um alerta que não pode ser ignorado quando uma pesquisa, recente, revela que o tabagismo encontrou terreno fértil entre os mais jovens. O dado de que 19% dos brasileiros de 16 a 24 anos entrevistados se declaram fumantes, acima da média nacional de 17%, deveria provocar mais do que preocupação. Deveria provocar uma reação.

O cigarro, durante décadas, foi associado a doenças graves, dependência e morte. Campanhas públicas reduziram o consumo, mas o problema está longe de ser resolvido. O que preocupa agora é perceber que a iniciação continua acontecendo justamente em uma fase marcada pela formação de escolhas. Segundo o levantamento, o primeiro contato com o cigarro ocorre, em média, aos 16 anos. É cedo demais para que uma dependência seja tratada como uma simples escolha individual.

O alerta ganha dimensão ainda maior diante dos cigarros eletrônicos. A aparência moderna, os sabores e a facilidade de circulação podem criar a falsa sensação de que se trata de algo menos perigoso. A nicotina, porém, continua capaz de provocar dependência. Seja no cigarro convencional ou no eletrônico, o risco é transformar a juventude em porta de entrada para um hábito que pode acompanhar o indivíduo por muitos anos.

Também merece atenção o impacto sobre quem não fuma. Um terço da população brasileira compartilha frequentemente ambientes domésticos ou de trabalho com fumantes. A exposição passiva à fumaça pode elevar o risco de câncer de pulmão, inclusive entre pessoas que nunca fumaram. O cigarro, portanto, não é apenas uma questão individual. Seus efeitos alcançam famílias, colegas e toda a sociedade.

O dado mais preocupante talvez seja a normalização do problema. Parte dos fumantes considera sua própria saúde boa ou ótima, percepção que pode dificultar o reconhecimento dos riscos e adiar a decisão de abandonar o cigarro. A ausência de sintomas imediatos não significa ausência de danos. Muitas consequências do tabagismo se acumulam silenciosamente durante anos.

É preciso fortalecer a prevenção entre adolescentes, ampliar a informação sobre os riscos dos cigarros eletrônicos, combater a banalização do consumo e oferecer apoio a quem deseja parar. Famílias, escolas, autoridades e profissionais de saúde têm responsabilidades diferentes, mas complementares. Prevenção deve começar muito antes da primeira tragada, e não depois do dano.

Quando um jovem começa a fumar, não estamos diante apenas de um hábito. Estamos diante da possibilidade de uma dependência que poderá acompanhá-lo por décadas. O avanço do tabagismo entre os mais novos deve servir como sinal de alerta. Ignorá-lo hoje significa correr o risco de pagar, amanhã, uma conta muito maior em doenças, sofrimento e vidas perdidas.