Editorial

RMC como potência desequilibrada

RMC como potência desequilibrada

Há algo de profundamente revelador e preocupante no fato de a Região Metropolitana de Campinas acumular, sozinha, um déficit comercial maior do que todo o estado de São Paulo. Não se trata de um tropeço pontual, mas de um desequilíbrio estrutural que persiste mesmo quando os indicadores aparentam melhora, como o crescimento mais acelerado das exportações em julho. O dado central é outro: a RMC segue importando muito mais do que exporta, e isso diz bastante sobre o papel que a região ocupa na engrenagem econômica.

É preciso reconhecer que esse resultado não nasce da fragilidade, mas, paradoxalmente, da sofisticação. A RMC é um polo tecnológico, industrial e científico, altamente dependente de insumos, equipamentos e componentes de alto valor agregado, muitos deles indisponíveis no mercado interno. O problema não é importar tecnologia; é depender dela de forma crônica, sem conseguir transformar, na mesma proporção, conhecimento em produtos competitivos no exterior.

O avanço das exportações, ainda que positivo, não altera essa lógica. Crescer sobre bases pequenas, como no caso de itens de baixa complexidade, ou concentrar-se em poucos produtos de alto valor, como a platina, não resolve o desequilíbrio de fundo. Tampouco ajuda a volatilidade de setores estratégicos, como o farmacêutico, que sofre oscilações relevantes mesmo sendo um dos pilares da pauta regional.

Há uma contradição evidente... a mesma região que concentra universidades, centros de pesquisa e empresas inovadoras não consegue converter plenamente esse capital em protagonismo comercial externo. O resultado é uma balança negativa que se sustenta no tempo e que exige compensação por outras regiões menos complexas, mas mais equilibradas.

Chama atenção também o papel das políticas públicas e dos incentivos econômicos, ainda pouco direcionados à redução dessa dependência estrutural. A ausência de estratégias mais robustas para nacionalização de insumos, estímulo à inovação com foco exportador e integração entre indústria e centros de pesquisa limita o potencial competitivo da região no cenário internacional. Sem coordenação entre poder público e setor produtivo, a tendência é de manutenção desse desequilíbrio, mesmo diante de avanços pontuais, prolongando um modelo que cresce, mas não se sustenta de forma equilibrada no comércio exterior.

Superar esse quadro passa por uma agenda que vá além do incentivo genérico às exportações. É necessário fortalecer cadeias produtivas locais, estimular a indústria de base tecnológica nacional e reduzir a dependência de importações estratégicas. Sem isso, a RMC continuará sendo um motor potente, mas que funciona à base de combustível externo, acumulando déficits que, cedo ou tarde, cobram seu preço.