EDITORIAL

Quando o dono não responde, quem paga é a vítima

Quando o dono não responde, quem paga é a vítima

Quando o dono não responde, quem paga é a vítima

Novamente cães soltos nas ruas transformaram uma situação cotidiana em cena de violência. Em Americana, três pessoas ficaram feridas depois que dois deles escaparam de uma residência e avançaram contra quem passava pela Vila Bertini. Entre as vítimas, uma mulher, um idoso e um jovem que tentou ajudar durante o ataque. Mulher e idoso precisaram de atendimento médico.

O episódio seriam uma notícia sobre cães agressivos se não gerasse uma pergunta que precisa ser respondida: quem e como episódios como esse devem ser punidos para que as vítimas possam se sentir minimamente acolhidas e reconhecidas ? Quais punições são capazes de coibir a irresponsabilidade dos donos dos animais?

Ter um cão significa assumir a responsabilidade por ele. Alimentar, vacinar e oferecer carinho são açções importantes, mas não suficientes. O tutor deve garantir que o animal não escape, não ameace vizinhos, não ataque pessoas e não represente perigo para a comunidade.

Não se trata de defender punições indiscriminadas, muito menos de transformar cães em vilões. Mas é o ser humano que pode compreender riscos, adotar medidas preventivas e responder pelos resultados.

O problema reside na sensação que fica depois de um ataque no qual a vítima arca com quase tudo: o medo, os ferimentos, o atendimento médico, o trauma e, em alguns casos, consequências que podem acompanhá-la por toda a vida. Enquanto isso, os responsáveis pelo animal, via de regra, enfrentam consequências consideradas menores.

É preciso mudar essa lógica. Ataques como o que ocorre recentemente não deveriam ser tratados somente após o ocorrido. A fiscalização precisa agir preventivamente diante de animais mantidos em condições inseguras e de denúncias de cães soltos, identificando e cobrando os responsáveis. Quando houver negligência comprovada, as sanções devem ser proporcionais ao risco criado e ao dano provocado.

Uma legislação que existe no papel, mas não produz consequência concreta, pouco ajuda a proteger a população. O rigor não significa simplesmente aumentar penas. Significa garantir investigação, responsabilização, fiscalização e cumprimento das medidas previstas em lei.

E há ainda uma dimensão mais importante: a prevenção. Não podemos esperar que alguém seja mordido para descobrir que um portão estava inadequado, que um muro não oferecia segurança ou que um animal já apresentava comportamento agressivo.

Toda vida importa, incluindo a dos animais, entretanto, a sociedade deve exigir que aqueles que decidem ter um também assumam integralmente a responsabilidade por ele.

Afinal, quando a negligência de um dono transforma um cachorro em ameaça, não é só o animal que deve ser culpabilizado, o tutor também precisa responder por aquilo que poderia, e deveria, ter evitado.