Editorial

São Paulo em destaque no mapa de segurança

São Paulo em destaque no mapa de segurança

O novo Anuário Brasileiro de Segurança Pública trouxe um dado que merece ser observado para além do ranking: as dez cidades brasileiras com as menores taxas de mortes violentas intencionais estão concentradas em apenas dois estados. Sete são paulistas e três catarinenses. Em um país marcado por profundas desigualdades sociais, econômicas e institucionais, essa concentração não pode ser tratada como mera coincidência.

É importante evitar conclusões simplistas. Nenhum estado está imune à criminalidade e nem mesmo os melhores indicadores significam ausência de violência. Ainda assim, quando uma tendência se repete ao longo dos anos, ela passa a indicar que determinados caminhos podem estar produzindo resultados mais consistentes do que outros.

No caso de São Paulo, os especialistas há anos apontam uma combinação de fatores. O investimento contínuo em inteligência policial, integração entre as forças de segurança, uso crescente de tecnologia, monitoramento por câmeras e sistemas de compartilhamento de informações ajudaram a reduzir a violência letal de forma gradual. Em Santa Catarina, embora o contexto seja diferente, também aparecem elementos como cidades de porte médio, maior integração institucional e indicadores sociais mais favoráveis.

Isso não significa que exista uma fórmula pronta. Segurança pública é um tema complexo, influenciado por educação, urbanização, oportunidades econômicas, combate ao crime organizado e eficiência do sistema de Justiça. Mas os números sugerem que políticas de longo prazo, mantidas independentemente das mudanças de governo, tendem a produzir resultados mais sólidos do que ações pontuais.

Outro aspecto que chama atenção é a presença de quatro cidades da Região Metropolitana de Campinas entre as dez primeiras colocadas. Santa Bárbara d'Oeste, Indaiatuba, Valinhos e Itatiba demonstram que bons resultados não estão restritos às capitais ou aos grandes centros.

Ao mesmo tempo, o ranking evidencia um Brasil dividido. Enquanto São Paulo e Santa Catarina concentram os melhores indicadores, as dez cidades mais violentas do país estão todas no Nordeste, reflexo de uma realidade marcada por disputas entre facções, vulnerabilidade social e desafios históricos para o poder público.

Mais do que celebrar posições em um ranking, o anuário deveria servir como ponto de partida para uma pergunta necessária: o que essas cidades fizeram de diferente e quais dessas experiências podem ser adaptadas à realidade de outras regiões? A resposta certamente não será única.

Talvez esteja justamente aí o principal mérito do levantamento: mostrar que reduzir a violência letal não depende de medidas isoladas ou de soluções imediatas, mas de políticas públicas consistentes, planejamento e continuidade administrativa.