EDITORIAL

Os desafios de Keiko e do Fujimorismo no Peru

Os desafios de Keiko e do Fujimorismo no Peru

A posse de Keiko Fujimori na Presidência do Peru inaugura um novo capítulo na política do país, mas também reabre um dos debates mais sensíveis de sua história recente. Mais do que qualquer outro chefe de Estado peruano das últimas décadas, Keiko inicia seu mandato sob o peso de uma herança política que transcende sua própria trajetória. O sobrenome Fujimori continua sendo, ao mesmo tempo, um ativo eleitoral e um permanente teste de credibilidade democrática.

Nos primeiros dias de governo, a presidente dificilmente será avaliada apenas por suas prioridades econômicas, sociais ou diplomáticas. Cada gesto político, cada nomeação ministerial e cada proposta de reforma institucional será observado à luz do legado de seu pai, Alberto Fujimori. Essa associação é inevitável. Afinal, o fujimorismo moldou profundamente a política peruana e permanece como um dos movimentos mais polarizadores da América Latina.

É verdade que Alberto Fujimori deixou resultados reconhecidos por parcela significativa da população. A estabilização da economia, após anos de hiperinf inflação e desorganização fiscal, e a derrota do Sendero Luminoso são apontadas como marcos de seu governo. Mas essa narrativa convive com outra, igualmente incontornável: a do autogolpe de 1992, da concentração de poderes, das violações dos direitos humanos e dos escândalos de corrupção que culminaram em sua condenação pela Justiça peruana. São essas duas memórias, incompatíveis entre si, que acompanharão cada passo da nova presidente.

O desafio de Keiko Fujimori será demonstrar que seu governo não pretende reeditar os métodos que marcaram o período mais controverso do fujimorismo. Em uma democracia fragilizada por sucessivas crises institucionais, presidentes destituídos e uma relação conflituosa entre Executivo e Congresso, qualquer sinal de interferência sobre o Judiciário, de restrição à imprensa ou de enfraquecimento dos mecanismos de controle institucional poderá alimentar receios dentro e fora do Peru.

Ao mesmo tempo, Keiko enfrentará uma pressão de sentido oposto. Parte de sua base política espera precisamente um resgate das políticas implementadas por Alberto Fujimori, especialmente nas áreas de segurança pública, combate ao crime organizado e liberalização econômica. Conciliar essas expectativas sem estimular a percepção de um retorno ao autoritarismo exigirá habilidade política, moderação e capacidade de diálogo.

A presidente também precisará construir uma identidade própria. Enquanto permanecer condicionada pela imagem do pai, seu governo correrá o risco de ser interpretado apenas como uma continuidade do passado. A legitimidade de sua administração dependerá menos das comparações históricas e mais da capacidade de fortalecer as instituições, respeitar os limites constitucionais e responder às demandas de uma sociedade que deseja estabilidade política.