Correio da Manhã
Editorial

Quando o inverno parece verão

Quando o inverno parece verão

O inverno sempre foi associado à estiagem, às temperaturas mais amenas e a um período de maior estabilidade climática em boa parte do Estado de São Paulo. As chuvas intensas, acompanhadas por ventos fortes e temporais capazes de derrubar árvores, interromper o fornecimento de energia e provocar grandes prejuízos, historicamente pertenciam ao verão. Mas a realidade parece caminhar em outra direção.

Os temporais que atingiram cidades do interior paulista na última semana, especialmente Ribeirão Preto e municípios vizinhos, chamam atenção não apenas pelos estragos, mas pelo momento em que ocorreram. Em pleno mês de julho, centenas de árvores vieram abaixo, bairros ficaram sem energia, casas foram destelhadas e uma pessoa perdeu a vida. Somente em Ribeirão Preto, os custos iniciais para limpeza e reconstrução já ultrapassam R$ 21 milhões.

Mais do que um episódio isolado, o temporal reforça uma percepção cada vez mais evidente: eventos climáticos extremos têm se tornado mais frequentes e intensos. As mudanças climáticas deixaram de ser um tema restrito aos estudos científicos para fazer parte da rotina das cidades, afetando moradores, produtores rurais e exigindo respostas rápidas do poder público.

O episódio também leva a uma reflexão inevitável. Se um temporal dessa magnitude ocorre durante o inverno, o que esperar da temporada de chuvas, quando o verão chegar? A resposta passa menos pela previsão e mais pela preparação. As cidades precisam investir continuamente em drenagem, manejo da arborização, monitoramento meteorológico, sistemas de alerta e infraestrutura capaz de minimizar os impactos de eventos extremos.

Não se trata de impedir que a natureza siga seu curso, mas de reduzir os prejuízos e preservar vidas. Planejar custa menos do que reconstruir. E preparar as cidades para uma nova realidade climática deixou de ser uma escolha para se tornar uma necessidade.

A adaptação às mudanças climáticas também exige planejamento de longo prazo. Revisar planos diretores, ampliar áreas verdes, investir em drenagem urbana, modernizar redes de energia e fortalecer a atuação das Defesas Civis são medidas que deixam de ser apenas recomendações e passam a integrar a agenda das cidades. Esperar que os eventos extremos voltem a ser exceção pode custar caro.

O inverno ainda não terminou. E já mostrou que as estações do ano parecem cada vez menos previsíveis. Se o clima mudou, cabe ao poder público e à sociedade compreender que velhas soluções talvez já não sejam suficientes para enfrentar os desafios que estão por vir.