Correio da Manhã
EDITORIAL

Depois da UE, Mercosul mira Tigres Asiáticos

Depois da UE, Mercosul mira Tigres Asiáticos

A possível assinatura de um acordo comercial entre o Mercosul e a Coreia do Sul representa uma das mais importantes iniciativas de integração econômica dos últimos anos. Em um cenário marcado pela crescente competição internacional e pela reorganização das cadeias globais de produção, ampliar mercados e fortalecer relações comerciais é uma necessidade estratégica. No entanto, embora o acordo ofereça oportunidades significativas, também desperta preocupações legítimas que não podem ser ignoradas.

Entre os principais pontos positivos está a expansão do acesso a um dos mercados mais desenvolvidos da Ásia. A Coreia do Sul possui elevado poder de compra e forte demanda por alimentos, produtos agrícolas e matérias-primas, setores nos quais os países do Mercosul apresentam grande competitividade. A redução de tarifas pode impulsionar as exportações, aumentar a entrada de divisas, estimular investimentos e gerar empregos, especialmente no agronegócio e na indústria de transformação voltada à exportação.

Outro benefício importante é a possibilidade de atrair empresas sul-coreanas interessadas em investir na região. A presença de multinacionais pode favorecer a transferência de tecnologia, a modernização de processos produtivos e o fortalecimento da infraestrutura industrial. Além disso, acordos comerciais tendem a ampliar a previsibilidade para investidores e a integrar o Mercosul às cadeias globais de valor.

Entretanto, os desafios são igualmente relevantes. A indústria sul-coreana é reconhecida por sua elevada produtividade e competitividade em setores como automóveis, eletrônicos, máquinas e equipamentos. A abertura comercial, caso não seja acompanhada de mecanismos de adaptação e políticas de fortalecimento industrial, pode ampliar a concorrência sobre empresas do Mercosul, sobretudo aquelas com menor capacidade tecnológica. O risco é a perda de participação da indústria regional, com impactos sobre o emprego e a produção nacional.

Também é necessário considerar as diferenças estruturais entre as economias envolvidas. Enquanto a Coreia do Sul consolidou um modelo baseado em inovação, pesquisa e desenvolvimento, muitos setores industriais do Mercosul ainda enfrentam dificuldades relacionadas à baixa produtividade, elevada carga tributária e deficiências logísticas. Sem investimentos em competitividade, o acordo poderá beneficiar de forma desigual os parceiros.

Diante desse cenário, o debate não deve se limitar à dicotomia entre abrir ou fechar mercados. O verdadeiro desafio consiste em negociar condições equilibradas, estabelecer períodos de transição para os setores mais vulneráveis e promover políticas que aumentem a competitividade da indústria regional. Um acordo comercial bem estruturado pode representar uma oportunidade histórica de crescimento, desde que seja acompanhado de planejamento, investimentos e compromisso com o desenvolvimento sustentável. O sucesso da parceria dependerá menos da assinatura do tratado e mais da capacidade dos países do Mercosul de transformar abertura econômica em progresso compartilhado.