Correio da Manhã
Editorial

O Monólogo dos que Fogem do Debate

Interrupção barulhenta seguida de fuga em evento na Unicamp expõe a degradação do espaço público por militâncias que buscam apenas o espetáculo digital

O Monólogo dos que Fogem do Debate

O recente episódio registrado no Teatro de Arena da Unicamp, onde um militante ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL) interrompeu aos gritos a aula magna do ex-ministro Fernando Haddad, joga luz sobre uma distorção preocupante no uso das garantias democráticas. O direito à livre manifestação e à divergência política é cláusula pétrea de uma sociedade plural. No entanto, o que se testemunhou em Campinas não foi o exercício saudável da liberdade de expressão, mas sim a mercantilização do barulho e o esvaziamento deliberado do debate público.

A fronteira da provocação: entrar em um espaço acadêmico lotado por cerca de 800 pessoas, que ali compareceram com o propósito legítimo de ouvir uma exposição, unicamente para berrar palavras de ordem descontextualizadas cruza a linha que separa a crítica do mero oportunismo coreografado.

A intenção ali nunca foi o dissenso construtivo ou o questionamento factual, mas a criação de um simulacro de confronto, planejado sob medida para alimentar o algoritmo de redes sociais com cortes rápidos e engajamento fácil.

O detalhe mais revelador dessa dinâmica, contudo, reside no comportamento subsequente do manifestante: grita e sai andando. A evasão imediata do local, acelerando os passos antes mesmo de receber qualquer contestação, desnuda a fragilidade metodológica do ato. Fica a pergunta inevitável: por que não permanecer? Por que não submeter a própria tese ao crivo do contraditório e aguardar a resposta do palestrante?

A resposta parece óbvia. Há um temor profundo do diálogo real. A política performática que viceja no ambiente digital alimenta-se do monólogo agressivo e da lacração unilateral; ela raramente sobrevive à densidade teórica ou à elegância de uma tréplica estruturada. Ao notar a fuga, a ironia de Haddad ao microfone sintetizou o sentimento geral: o recuo do rapaz demonstrou que o intuito era o tumulto, não o confronto democrático de ideias.