Correio da Manhã
editorial

Inverno exige mais do que cobertores

Inverno exige mais do que cobertores

O inverno começou oficialmente no domingo e, com ele, chegam as madrugadas geladas que transformam as ruas em um ambiente ainda mais hostil para quem não tem para onde ir. Enquanto grande parte da população busca abrigo dentro de casa, milhares de pessoas passam as noites expostas ao frio, à chuva e ao vento. Para muitos, sobreviver ao inverno é um desafio diário.

Em Campinas, estima-se que cerca de 1.700 pessoas estejam em situação de rua, segundo os levantamentos mais recentes da Prefeitura e da Fundação FEAC. O número reflete uma realidade que vem crescendo nos últimos anos e que não pode ser ignorada. Por trás das estatísticas existem histórias marcadas pela perda de vínculos familiares, desemprego, dependência química, problemas de saúde mental e outras vulnerabilidades.

Quando as temperaturas caem, o risco aumenta. Todos os anos, cidades brasileiras registram mortes associadas ao frio. Em muitos casos, essas vítimas sequer são identificadas. Partem sem nome, sem família por perto e, frequentemente, sem que a sociedade perceba. São vidas que desaparecem em silêncio, longe dos holofotes e das estatísticas que costumam mobilizar a opinião pública.

Diante desse cenário, as ações anunciadas pela Prefeitura de Campinas para enfrentar eventos climáticos extremos merecem atenção. O pacote inclui medidas como a criação de refúgios climáticos, ampliação de espaços de acolhimento, instalação de bebedouros públicos e integração entre diferentes setores da administração. Embora muitas iniciativas tenham como foco as ondas de calor, elas também representam uma oportunidade para fortalecer a proteção das pessoas mais vulneráveis durante períodos de frio intenso.

Mas nenhuma política pública será suficiente sem um olhar permanente para quem vive à margem. O inverno expõe uma realidade que permanece durante todo o ano. A falta de moradia, acesso à saúde, oportunidades de trabalho e assistência social não desaparece quando as temperaturas voltam a subir.

Por isso, além das ações emergenciais, é necessário fortalecer programas de acolhimento, ampliar abordagens sociais e garantir que os serviços públicos cheguem a quem mais precisa. A participação da sociedade também é fundamental, seja por meio de campanhas de doação, trabalho voluntário ou simples gestos de solidariedade.

O inverno é uma estação passageira. A vulnerabilidade social, infelizmente, não. Que as baixas temperaturas sirvam de alerta para uma questão que exige atenção durante todo o ano. Porque nenhuma cidade pode se considerar verdadeiramente desenvolvida enquanto parte de sua população continua enfrentando o frio, a fome e o abandono a céu aberto.