Correio da Manhã
Editorial

Peso do Clima: El Niño, Inverno e Prevenção

Peso do Clima: El Niño,
Inverno e Prevenção

O início oficial do inverno no Hemisfério Sul, às 5h24 deste domingo (21), não traz apenas a transição para dias frios, mas inaugura um período de extrema atenção estrutural para o Brasil. A estação, caracterizada pela persistência de massas de ar seco e pela queda na umidade relativa do ar, começa sob a sombra da consolidação do El Niño. A confirmação do fenômeno pela agência norte-americana NOAA eleva o debate a um novo patamar de gravidade: com 63% de probabilidade de atingir intensidade "muito forte" até o início de 2027, o aquecimento das águas do Pacífico pode quebrar recordes históricos vigentes desde 1950.

Nesse cenário de descompasso climático, o perigo dos incêndios florestais e urbanos desponta como uma das ameaças mais imediatas. A combinação entre a estiagem natural do trimestre e o superaquecimento global potencializa o risco de queimadas de forma alarmante. Se no Norte e Nordeste a redução drástica das chuvas ameaça castigar a Amazônia e o semiárido com incêndios devastadores, o Sudeste não está imune. A previsão de forte elevação térmica e atraso nas precipitações transforma áreas de preservação em focos vulneráveis. A vegetação seca, submetida a massas de ar seco persistentes, torna-se combustível altamente inflamável, exigindo fiscalização rigorosa contra queimadas agrícolas e conscientização pública para evitar desastres.

O El Niño é um processo natural da Terra. Contudo, o impacto potencialmente catastrófico que enfrentamos não decorre apenas da mecânica do fenômeno, mas da severa vulnerabilidade das nossas cidades. O avanço da urbanização sem planejamento, o desmatamento e a degradação de matas ciliares desarmaram as defesas ambientais dos municípios.

O aquecimento global atua em simbiose com o El Niño, injetando energia na atmosfera e multiplicando os extremos. Quando a umidade finalmente retornar, a previsão é de tempestades severas e pancadas intensas, capazes de castigar solos fragilizados pela seca e pelo fogo.

Diante do factual estabelecido, a complacência dos gestores públicos é um erro grave. Estados e municípios precisam agir imediatamente na revisão de planos de contingência, monitoramento de áreas de risco e, sobretudo, no fortalecimento de brigadas de combate a incêndios e limpeza de drenagens. A preparação comunitária, o planejamento técnico e a infraestrutura verde são as únicas barreiras capazes de resguardar vidas diante de um clima cada vez mais instável.