Correio da Manhã
EDITORIAL

A Copa do Mundo fora das quatro linhas

A Copa do Mundo fora das quatro linhas

A Copa do Mundo de 2026 foi apresentada como a celebração máxima da integração entre nações. Organizada conjuntamente por Estados Unidos, México e Canadá, a competição deveria simbolizar cooperação, mobilidade e encontro entre culturas. No entanto, os acontecimentos recentes envolvendo delegações, autoridades esportivas e países participantes revelam um cenário preocupante que a FIFA insiste em ignorar.

Nos últimos meses, episódios constrangedores colocaram em dúvida a capacidade dos Estados Unidos de oferecer o ambiente de neutralidade e acolhimento que um evento esportivo dessa magnitude exige. A deportação de um árbitro somali, a revista da delegação do Senegal ainda na pista de um aeroporto e as restrições que atingem cidadãos de determinados países demonstram que questões migratórias e de segurança interna estão se sobrepondo aos compromissos assumidos com o futebol internacional.

O caso do Irã é ainda mais emblemático. Diante das limitações para permanência em território norte-americano, a seleção corre o risco de ter sua logística comprometida, sendo obrigada a se deslocar constantemente a partir do México para cumprir partidas realizadas nos Estados Unidos. Não é apenas uma questão diplomática. Trata-se de uma evidente quebra do princípio de igualdade competitiva. Enquanto algumas equipes poderão permanecer instaladas próximas aos locais de jogo, outras enfrentarão viagens adicionais, desgaste físico e dificuldades operacionais que nada têm a ver com desempenho esportivo.

Diante desse quadro, causa estranheza a passividade da FIFA. A entidade tem demonstrado enorme rigor para intervir em calendários, sedes e regulamentos quando seus interesses comerciais ou políticos estão em jogo. Porém, quando surgem fatores que podem afetar diretamente a experiência dos atletas, das delegações e do próprio público, prevalece o silêncio.

Ainda há tempo para agir. A revisão da tabela, a concentração de jogos de determinadas seleções em sedes específicas ou mesmo a redistribuição de partidas entre os três países organizadores seriam alternativas razoáveis para reduzir riscos e evitar novos constrangimentos. Ignorar o problema não fará com que ele desapareça.

A Copa do Mundo não pode se transformar em uma vitrine de barreiras migratórias, suspeitas diplomáticas e tratamentos desiguais. Se a FIFA pretende preservar a credibilidade de seu principal torneio, precisa reconhecer que a realidade política também influencia o futebol. Caso contrário, o espetáculo corre o risco de ficar marcado não pelos gols e pela festa das torcidas, mas pelos vexames que poderiam ter sido evitados.