Correio da Manhã
EDITORIAL

Menos burocracia, mais tempo para viver

Menos burocracia, mais tempo para viver

Menos burocracia, mais tempo para viver

Poucas obrigações de um brasileiro conseguem reunir sentimentos tão contraditórios quanto a Declaração Anual do Imposto de Renda. Para alguns, talvez, ela possa representar algo positivo - como para os contadores que trabalham cobrando para o preenchimento dela como "bico"... Mas, para a maioria dos brasileiros, é sinônimo de preocupação, dúvidas, filas virtuais, recibos perdidos e horas gastas diante do computador, além da espera para receber um dinheiro que sequer deveria ter saído do orçamento. Diante deste cenário, que se repete anualmente, a perspectiva de que, em poucos anos, os contribuintes não precisem mais preencher manualmente a declaração pode ser recebida como um avanço e alento. A proposta anunciada pelo Ministério da Fazenda não decreta o fim da fiscalização nem das responsabilidades tributárias. Trata-se de algo mais simples e inteligente, aproveitar as informações que o próprio governo já dispõe para poupar tempo e esforço do cidadão.

O Brasil, aliás, parte de uma posição privilegiada nessa transformação. A Receita Federal é frequentemente apontada como uma das administrações tributárias mais avançadas do mundo em uso de tecnologia da informação. Além disso, todo o processamento das declarações ocorre de forma eletrônica há mais de uma década.

E a mudança já está em curso. A declaração pré-preenchida cresce ano após ano e se tornou a preferência de milhões de brasileiros. Mais do que uma inovação tecnológica, trata-se de uma mudança de mentalidade. Durante décadas, o cidadão precisou se adaptar à burocracia estatal. Agora, é a burocracia que começa a se adaptar ao cidadão. O tempo economizado por milhões de pessoas poderá ser dedicado ao trabalho, ao estudo, à família ou simplesmente ao descanso. Parece pouco, mas não é. É claro que a transição exigirá cautela, sistemas automatizados seguros, proteção de dados e mecanismos eficientes de correção de informações. A validação pelo contribuinte continuará sendo fundamental para evitar inconsistências.

Ainda assim, a direção está correta. Um governo moderno não deve medir a sua eficiência pela quantidade de formulários que exige da população, mas pela capacidade de prestar serviços de forma simples, rápida e transparente. Se a promessa se concretizar, o fim da declaração manual do IR poderá representar uma das mais significativas simplificações da relação entre Estado e contribuinte desde a digitalização dos serviços públicos. E, convenhamos, devolver tempo às pessoas talvez seja uma das melhores formas de respeito ao cidadão.