Campinas registrou crescimento de 44% no número de trabalhadores com mais de 50 anos no comércio em apenas uma década.O dado pode até parecer positivo à primeira vista. O discurso oficial justifica como inclusão, experiência valorizada e ‘amadurecimento’ do mercado de trabalho. Entretanto, basta olhar um pouco além das planilhas para perceber que talvez exista menos motivos de celebração e mais de necessidade nesta história.
O ponto mais revelador da pesquisa do Sindivarejista não reside no crescimento dos empregos para trabalhadores com mais idade, mas sim no fato de o comércio praticamente não ter crescido no período. Em dez anos, o segmento saiu de 93,6 mil empregos formais para 94,4 mil, um avanço irrisório de apenas 0,8%. Ou seja: quem sustentou o saldo positivo do comércio campineiro foram justamente os profissionais acima dos 50 anos, enquanto outras faixas etárias perderam espaço.
E isso diz muito sobre o Brasil atual
Os setores que mais absorvem esses trabalhadores são os supermercados, hipermercados e minimercados, atividades conhecidas por jornadas desgastantes, trabalho em pé ou sentado por horas, escalas aos fins de semana e salários comprimidos. E há uma explicação econômica e social bastante coerente para isso: os brasileiros mais velhos pertencem a uma geração treinada pela ‘sobrevivência’.
São pessoas que atravessaram hiperinflação, desemprego estrutural, dezenas de planos econômicos fracassados, recessões sucessivas e crises cambiais. Aprenderam cedo que estabilidade é artigo raro no país. Por isso, aceitam condições que os mais jovens rejeitam. Não porque “amam trabalhar”, mas porque precisam complementar as suas aposentadorias insuficientes ou simplesmente continuar pagando as contas.
O próprio IBGE mostra que mais de 60% dos aposentados brasileiros vivem com até um salário mínimo. A chamada “aposentadoria”, comumente, já não aposenta mais ninguém. Ela apenas evita o colapso completo da renda familiar.
Enquanto isso, uma parte da juventude abandona as vagas formais exaustivas e migra para os aplicativos, informalidade ou pequenos trabalhos autônomos. E é nesse ponto que a explosão dos MEIs precisa ser observada com cautela.
O Brasil comemora recordes de microempreendedores individuais como se estivesse diante de uma onda de empreendedorismo vibrante. Porém, quantos desses novos CNPJs nasceram de uma oportunidade de negócio real e viável real e quantos surgiram depois de demissões silenciosas e da incapacidade do mercado formal de absorver trabalhadores?
O fenômeno dos 50+ no comércio talvez revele exatamente isso: um mercado sustentado por quem já conhece o peso das crises e aceita jornadas duras para sobreviver. Não é necessariamente sinal de prosperidade. Pode ser apenas o retrato de um país onde envelhecer deixou de significar descanso e passou a representar mais uma década de resistência econômica.
O problema não está nos trabalhadores maduros ocuparem espaço. Está no nosso país, que depende, cada vez mais, da resignação deles para manter as estatísticas funcionando.