O legado dos gregos para a formação do ocidente é indiscutível. Por isso, talvez, queiram tanto destruí-lo. Em artigo já publicado, comentei sobre o aspecto da Matrix na obra A República, de Platão (séc. IV a.C.). Passado o período eleitoral, sinto-me à vontade para comentar acerca do livro VI dessa obra atemporal. Nele há uma famosa metáfora (alegoria) narrada por Sócrates.
Na passagem 488a até 489e, Platão descreve um barco cujo capitão (povo ou Estado), embora forte, é míope e um tanto surdo, além de não dominar a arte de navegar. Os marinheiros (políticos e demagogos) são igualmente desprovidos de conhecimento náutico. Contudo, digladiam-se pelo poder e controle do leme; sabotam as decisões do capitão. Usam de bajulações e até de violência para tomar-lhe a liderança. Enquanto isso, o barco fica à deriva. A cobiça pelo poder é insana. Chegam a embriagar o comandante ou deixam-no incapacitado. Chamam de estúpido, inútil e observador de estrelas a pessoa verdadeiramente capacitada para segurar o leme e entendida de astronomia, marés e navegação. Conhecemos bem essas atitudes.
O objetivo da alegoria é claro: trazer à luz as falhas da governança ateniense à época, quando o poder era disputado por cidadãos sem qualquer preparo técnico, ou conhecimento da justiça, ou saber verdadeiro (filósofos). Não precisamos desejar a perfeição e a utopia de Platão. Sabemos que a ausência de um mínimo de conhecimento no comando da NAU pode fazê-la naufragar para desventura dos navegantes.
Na Idade Média, a questão reaparece com interpretações adequadas ao momento histórico. Em 1494, A Nau dos Insensatos foi retratada no poema satírico e moralizante do alemão Sebastian Brant, cuja tripulação representava os vários tipos de idiotas úteis e vícios humanos daquela sociedade. Já no séc. XX, em 1962, Katherine Anne Porter publica seu romance homônimo, ambientado a bordo de um navio rumo à Alemanha de 1931-33, no contexto da ascensão do nazismo. Porter trata esse tipo de totalitarismo de modo banal. Entretanto, deixa claro as consequências da ignorância, do dar as costas à razão e do entregar-se à ganância desenfreada. Outras interpretações distorcidas do pensamento platônico influenciaram o autoritarismo político em ambos os espectros ideológico-políticos.
Nos anos 2007-8, John Alexander, norte-americano, retoma o tema em uma grande pintura exposta no museu Smithsonian, em Washington. O autor evoca a imagem do desatino ganancioso e letal, individual e coletivo, ao qual a Morte determina o desfecho resultante do desgoverno da NAU. Um barco à deriva desperta o instinto de sobrevivência em todos. Nessa hora, é cada um por si, um salve-se quem puder, independentemente de estarem todos no mesmo barco com destino incerto.
Finalizo citando a lição da Nau de Porter. Ela crê que para corrigir o rumo, basta a disposição de pensar e trabalhar: "O lugar para onde você vai ainda não existe, você deve construí-lo quando chegar ao ponto certo".
Menu