Se tem uma coisa que me incomoda é ouvir alguém questionar a inteligência de outra pessoa por causa do candidato em quem ela votou. Na eleição presidencial do último domingo, vencida por Lula, não foi diferente. Parece que, para muita gente, a capacidade de raciocinar dos brasileiros depende de onde eles apertaram o botão da urna.
Não é de hoje. Em 2014, tivemos a fase dos "coxinhas" e dos "mortadelas". Uns apoiavam Aécio Neves, do PSDB; outros, Dilma Rousseff, do PT. Mais de uma década depois, os apelidos mudaram, e o desprezo aumentou. Agora há quem chame o outro de "gado", "petralha" ou "pobre de direita", entre tantos rótulos usados para desqualificar quem pensa diferente.
Nas eleições de 2018, entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, perdi amigos por divergências políticas. Sinto falta de vários deles. Foram relações que não resistiram àquele período de polarização. Hoje, olhando para trás, me pergunto se todas aquelas discussões precisavam ter terminado daquela maneira.
Naquele ano, a agência Lupa, em parceria com pesquisadores da USP e da UFMG, analisou as 50 imagens mais compartilhadas em 347 grupos públicos de WhatsApp durante o primeiro turno. Apenas quatro eram comprovadamente verdadeiras. Algumas das brigas que me custaram amigos talvez tenham começado com uma mentira encaminhada por mensagem.
Oito anos depois, uma pesquisa do Instituto Informa, divulgada em julho, mostrou que 52,7% dos entrevistados já romperam ou reduziram o contato com amigos ou familiares por causa de política. As eleições terminam, mas nem sempre as relações se recompõem.
A saudade e a tristeza provocadas por esses afastamentos também afetam a saúde mental e podem durar muito mais do que uma campanha. E continuamos discutindo não apenas o que as pessoas pensam, mas se elas são capazes de pensar.
O preconceito fica pior quando o alvo é uma região inteira do país. Depois do primeiro turno deste ano, um levantamento da Ativaweb DataLab identificou cerca de 27 milhões de menções, links e compartilhamentos com críticas ao voto dos nordestinos nas redes sociais, em apenas três dias. Entre as manifestações, reapareceram velhos estereótipos sobre o eleitor nordestino. É curioso que o voto de milhões de brasileiros seja tratado como expressão legítima da democracia apenas quando coincide com a preferência de quem o julga.
O desprezo também vem da esquerda, quando o eleitor evangélico ou o trabalhador que vota na direita é tratado como alguém manipulado, incapaz de saber o que é bom para si.
Durante mais de um século, brasileiros analfabetos foram impedidos de votar. A restrição foi estabelecida pela Lei Saraiva, de 1881, e só terminou em 1985. Nesse período, saber ler era condição para exercer um direito político fundamental. E os mais prejudicados eram justamente aqueles para quem o próprio Estado não havia garantido acesso à escola.
Minha avó materna, Dona Judith, passou a vida ensinando conterrâneos a ler no sertão da Paraíba. Estudou apenas até o antigo primário e nunca teve diploma universitário. Ainda assim, foi a mulher mais inteligente que conheci na vida.
Mesmo cursando um doutorado ligado à área política, eu sei que minha opinião não vale mais do que a do seu João da padaria. Na urna, os dois votos pesam exatamente o mesmo, e é assim que deve ser. Seu João chegou às conclusões dele pelo caminho que a vida lhe deu. Posso discordar, posso argumentar, mas não tenho o direito de tratá-lo como alguém incapaz de decidir por conta própria.
Não sei em quem o seu João votou no domingo, e não preciso saber para respeitá-lo. É isso que falta em nossas discussões políticas: reconhecer que ninguém sabe tudo e que o conhecimento não pertence exclusivamente a quem pensa como nós.
Menu