Há um paradoxo na economia brasileira: a dimensão de nossas ineficiências também revela o espaço para ganhos rápidos quando começamos a corrigi-las. Um programa crível de reformas pode reduzir o risco e os juros de mercado antes de sua execução estar concluída. O país precisa convencer que realizará seu novo design.
A entrada de cerca de R$ 10 bilhões de capital estrangeiro na Bolsa após o primeiro turno sinaliza essa possibilidade. O desempenho de Flávio Bolsonaro e os avanços de seu campo no Senado e na Câmara alimentaram expectativas de mudança. Mas a confiança que movimenta um pregão precisa converter-se na confiança que sustenta uma fábrica, um aeroporto ou um hotel por décadas.
O revogaço já integra a agenda de sua equipe econômica, com Daniella Marques, ex-presidente da Caixa, e Adolfo Sachsida, ex-ministro de Minas e Energia. Daniella anunciou o mapeamento de mais de mil normas para revisão e revogação. A intenção merece crédito; executá-la exige metas e resultados verificáveis.
Nossa arquitetura encarece o capital, onera a contratação e consome recursos que poderiam financiar produção e inovação. Os incentivos frequentemente premiam a acomodação e penalizam a iniciativa.
Segundo o IBPT, entre outubro de 1988 e setembro de 2025 foram editadas 8,22 milhões de normas federais, estaduais e municipais: cerca de 222 mil por ano em 37 anos. O total inclui normas revogadas e revela a escala da instabilidade normativa.
O revogaço deve eliminar obrigações duplicadas, cadastros que repetem informações já entregues ao Estado, autorizações desproporcionais ao risco e regras criadas para problemas que desapareceram. O Executivo revisa seus atos; leis exigem o Congresso. Estados e municípios devem participar. As resoluções do Conama devem passar pelo mesmo exame de necessidade, legalidade e resultado. Proteção ambiental exige evidências, competências claras e previsibilidade.
A Lei de Liberdade Econômica, aprovada em 2019 no governo Bolsonaro, iniciou uma mudança importante. Sua aplicação precisa alcançar o balcão e a fiscalização. Na Heritage de 2026, o Brasil ocupa o 134º lugar em liberdade econômica. Completar essa implementação e estabelecer novas metas deve ser parte central do redesenho.
A reforma tributária do consumo traz ganhos, mas conserva exceções, tratamentos diferenciados e uma longa transição com dois sistemas. Permanece também o peso das contribuições sobre a folha. Desonerar o emprego formal, com financiamento sustentável, deve integrar a reorganização fiscal. E a discussão da escala 6 por 1 precisa reconhecer as diferenças entre saúde, aviação, petróleo, mineração, bares e restaurantes, com descanso, segurança e negociação coletiva.
A questão fiscal é decisiva. Nos doze meses até agosto de 2026, os juros nominais do setor público somaram R$ 1,182 trilhão. Um ajuste consistente pode reduzir o risco e criar condições para juros menores. A economia com a dívida aparece gradualmente, conforme sua composição e refinanciamento, abrindo espaço para investimento público e proteção social. Esse ganho depende de disciplina fiscal; não pode servir de pretexto para adiá-la.
O governo Temer mostrou a importância dessa combinação. O teto de gastos e a reforma trabalhista, junto à desinflação e à condução monetária, acompanharam a queda da Selic de 14,25% para 6,5%. Crescimento sustentado exige continuidade.
Um ambiente melhor deve atrair capital internacional para máquinas, instalações e infraestrutura, ampliando a formação bruta de capital fixo. Fluxos para a Bolsa e empréstimos entre empresas não equivalem automaticamente a essa expansão produtiva. Mais capacidade de produzir ajuda a conter pressões inflacionárias futuras e sustenta melhores salários. É assim que se rompe o impasse entre baixo crescimento, crédito caro e fragilidade fiscal: a armadilha da renda média.
Reformas mexem com interesses e acomodações. Uma possível vitória de Flávio, somada à força no Senado e na Câmara, oferece uma oportunidade, não aprovação automática. Os seis primeiros meses são vitais. É preciso aproveitar o estado de graça para construir maiorias, negociar resistências e comunicar os benefícios: uma economia maior, mais produtividade e resultados para todos. Haverá momentos de firmeza, mas o convencimento deve predominar.
Com regras claras, contratos respeitados e estabilidade, o Brasil pode tornar-se um destino mais seguro para investimentos num mundo instável. Nossas ineficiências oferecem espaço para avançar; a liderança precisa convertê-lo em prosperidade. O novo design exige força política para iniciar as mudanças e habilidade política para fazê-las durar.
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