O resultado do primeiro turno da eleição é apenas estarrecedor, sobretudo pelo perfil lamentável dos recém-eleitos, a indigência moral, intelectual e mental deles. Alguns com votações recordes, como é o caso desse Nicolas Ferreira, para ficar num único exemplo.
O que torna o quadro mais assustador é que ainda falta a cereja do bolo, que pode vir com o resultado do segundo turno de alguns governos estaduais mas, sobretudo, para a presidência da república. Que Lula não é santo nem infalível já se sabe há muito tempo. Mas igualmente sabe-se que sua biografia não carrega manchas de corrupção, até porque as únicas acusações, entre elas as do famoso sítio, ficaram lá por Atibaia mesmo, foram fartamente desmentidas. E olha que ironia: o juiz Sérgio Moro, que pilotou toda a farsa da tristemente famosa Operação Lava-jato que causou a prisão de Lula por mais de 500 dias, acaba de ser eleito... governador do Paraná!
O eleitorado brasileiro foi tratado - e reagiu! - como boiada, simplesmente obedecendo de olhos fechados às indicações eleitorais dadas pelos líderes da ultra-direita. Um exemplo simples, mas muito expressivo: no chão em frente a uma escola onde funcionou uma seção eleitoral aqui em Brasília recolhi na manhã da segunda-feira pós-eleição, um santinhoque trazia, de um lado, uma foto do ex-presidente Jair Bolsonaro, com o ar solene de quem escuta o hino nacional, tendo ao fundo uma bandeira brasileira. Na outra face, uma lista de números dos candidatos. Números. Apenas números. Nenhuma foto. Nenhum nome. Nenhuma informação adicional. Nada. Como se dissesse: estão aí os números dos candidatos. Vai lá, vota, não faz perguntas e não enche o saco, p...!
Impressiona fortemente a maioria expressiva de votos dados a Flávio Bolsonaro, demonstrando com o resultado que o caminhão de provas de corrupção, desde as rachadinhas até o envolvimento no caso Master, incluindo-se aí os milhões movimentados com o filme-hagiográfico Dark Horse, nem arranharam sua imagem.
A guinada eleitoral deste outubro foi abertamente em direção à... EXTREMA-direita!, com tudo o que ela tem de mais idiota e maligno. E afirmo isso com a experiência de quem vem cobrindo política desde os anos 70, plena ditadura militar. Mas os direitistas daquela época eram razoavelmente alfabetizados. Dava para trocar ideias com eles. Ideias! Chega a dar saudades de um Jarbas Passarinho, coronel e um dos subscritores do famigerado AI-5. Pois era possível conversar com ele, trocar ideias de forma civilizada.
De volta ao tema inicial. Um dos principais problemas gerados pela polarização política em que estamos mergulhados é a cegueira ideológica, ou seja, a impossibilidade de reconhecimento de qualquer virtude no "outro lado", o que traz como efeito subsequente a anulação do raciocínio, que impede a simples aceitação do óbvio. A polarização traz como outros efeitos a substituição da palavra "adversário" por "inimigo" político. A confiança nas instituições desaba, ainda mais quando se convive hoje com uma crise brutal num dos pilares da democracia, o poder judiciário. É aí que a democracia é usada para destruir a própria...democracia! O diálogo fenece. A preocupação com políticas públicas se extingue, substituída pelo simplório "farinha pouca, meu pirão primeiro".
A "endireitização" que a última eleição trouxe à representação parlamentar e o grande número de governos estaduais traz também como consequência a ausência de "accountability", ou seja, a obrigação de prestar contas dos atos praticados e a auto-responsabilização por eles, além da necessidade de agir com total transparência. Sem falar nos efeitos econômicos, com a retração de investimentos num ambiente de permanente instabilidade institucional.
A maioria que a ultra-direita bolsonarista obteve no Senado oferece todas as condições para um abalo sísmico sem precedentes, com a abertura de processos contra ministros do supremo, para ficar num único exemplo. Ou seja: o pior não está por vir: o pior já chegou. Daqui pra frente vale o velho dito popular: quem for podre que se quebre.
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