Opinião

Dois livros para o próximo presidente

Dois livros para o próximo presidente

Um mestre chinês ensinava por meio de conversas. Um imperador romano escrevia lembretes para si mesmo. Separados por séculos e civilizações, Confúcio e Marco Aurélio deixaram dois livros que continuam a fazer uma pergunta: como conduzir os outros sem aprender a governar a si mesmo?

Os Analectos reúnem ensinamentos e diálogos de Confúcio preservados por seus discípulos e sucessores. Falam de educação, convivência, responsabilidade e governo. Assim, aprender, reconhecer limites e transformar conhecimento em conduta são exercícios de sabedoria.

"Governar é retificar", responde Confúcio quando lhe perguntam sobre política. A expressão associa governo e retidão. Quem dirige deve começar pelo próprio comportamento: seu exemplo dá credibilidade às exigências que faz aos demais. É difícil ensinar honestidade por decreto quando a desonestidade encontra abrigo no comando.

Outra conversa trata dos fundamentos do governo. Confúcio menciona alimento, armas e confiança. Perguntado sobre o que poderia ser sacrificado, deixa a confiança por último. A autoridade precisa de um vínculo moral com a sociedade. Quando a palavra de quem governa perde valor, a obediência pode até permanecer, mas algo essencial se rompeu. Daí o desespero do povo.

Nos Analectos, a escolha dos auxiliares merece muita atenção: as funções públicas devem ser confiadas a pessoas de virtude e talento. E há uma distinção preciosa entre harmonia e uniformidade. A pessoa de caráter consegue conviver com diferenças. Concordar em tudo não é condição para cooperar. Verdades e diplomacia produzem confiança.

Na China, esse pensamento faz parte de uma longa tradição de formação moral e política. Depois de combatido no período maoísta, voltou a ganhar espaço na era de reformas aberta por Deng Xiaoping. Xi Jinping o incorpora expressamente ao discurso sobre governo. Em encontro com o primeiro-ministro da Malásia, em 2023, citou "governar é retificar". A fidelidade à lição se mede pelos atos.

Meditações tem outra origem. São anotações pessoais de Marco Aurélio, imperador romano do século II, sobre como viver e agir segundo a filosofia estoica. Um homem com tanto poder lembrava a si mesmo de ser justo, aceitar correções e não se deixar deslumbrar pelo cargo.

"Não percas mais tempo discutindo como deve ser um homem bom. Sê um." A advertência, em tradução livre, cobra coerência entre discurso e vida. Em outra passagem, Marco Aurélio se dispõe a mudar de opinião quando alguém lhe demonstrar um erro.

Diante da ofensa, aconselha: "A melhor vingança é não se tornar semelhante a quem praticou a injustiça". E recorda: "O que não beneficia a colmeia não beneficia a abelha". Autocontrole e bem comum se encontram. O ressentimento pessoal não deve comandar a ação de quem tem responsabilidades com os outros.

A leitura atravessa fronteiras: Bill Clinton apontou Meditações como seu livro favorito; o ex-primeiro-ministro chinês Wen Jiabao declarou tê-lo lido mais de cem vezes.

Aprender une os dois autores. Para Confúcio, o verdadeiro erro é cometê-lo e não o corrigir. Em Marco Aurélio, buscar a verdade vale mais que defender a própria opinião. São caminhos que nos convidam a adotar a verdade como baliza: reconhecer os fatos e ter coragem de mudar diante deles.

E nós? Nesta eleição, os campos políticos em disputa precisam responder por seu compromisso com a honestidade intelectual. Escolher um lado não obriga ninguém a defender seus erros. Quando derrotar o outro se torna o objetivo supremo, cresce a tentação de tolerar mentiras convenientes. Quem a defende, sabendo-a falsa, sacrifica a verdade pela lealdade à sua trincheira. Essa é uma das colunas da radicalização.

A mesma baliza vale para todos: Executivo, Congresso, Supremo Tribunal Federal e imprensa. Ninguém está dispensado de reconhecer fatos e corrigir erros. A guerra de versões desgasta a confiança e alimenta a angústia. O Brasil precisa de mais verdade. Podemos divergir sobre os caminhos sem fabricar os fatos que orientam nossas escolhas. Isso exige transparência nos números, promessas responsáveis e disposição para prestar contas.

Ao vencedor, no primeiro ou no segundo turno, sugiro esses livros, entregues também a cada ministro, assessor e auxiliar. Um novo mandato é uma nova oportunidade. O passado não pode ser mudado, mas sua sombra não precisa determinar o futuro. A cura começa no que fazemos agora e no futuro que decidimos construir. Quem errou pode reconhecer, aprender e fazer melhor.

Governar é retificar. Que o próximo presidente assuma essa responsabilidade desde o primeiro dia: dizer a verdade, corrigir os erros, escolher auxiliares à altura do cargo e colocar o bem comum acima da conveniência política. A confiança pública não se exige; conquista-se por atos. O Brasil vai ter mais uma chance. Mudar é importante.