Um dos principais obstáculos à mudança na intenção de voto nos dias que antecedem uma eleição é o chamado "espírito de grupo", ou seja, o receio do eleitor de sofrer rejeição ou discriminação caso assuma posição diversa da que seu grupo professa. Esses grupos existem na família, na igreja, no trabalho, na associação, na vizinhança, no boteco, na feira etc. E exercem um fortíssimo poder de coerção, capaz de inibir qualquer tentativa de mudança de posição deseus membros.
Justamente por isso, e também para evitar o poder inibitório dos que se consideram "donos" dos votos de seus subordinados, caracterizado pelo chamado "coronelismo", é que existe o voto secreto. Mas a falta de consciência dos eleitores sobre a finalidade do voto secreto impede eventuais mudanças de posição. E até mesmo o livre exercício da liberdade individual para a qual o voto secreto foi criado.
As pesquisas sobre as chances dos candidatos à eleição que está chegando revelam um quadro quase cristalizado, com poucas movimentações nas intenções de votos, mesmo diante de denúncias sólidas e graves contra alguns candidatos. A razão para esta "paralisia" está justamente no receio que o eleitor tem de sofrer algum tipo de rejeição ou retaliação caso divirja da posição totalitária do(s) grupo(s) a que pertence. Pois foi justamente por isso que surgiu o voto secreto, instrumento basilar da democracia. E olha que o segredo do voto não é de hoje. Lá na Grécia Antiga já havia votações secretas por meio de cédulas. Na Roma Antiga, igualmente. A legislação sobre o tema, consolidadas nas "Tabellariae Leges", 140 anos antes de Cristo, já previa votações secretas para a eleição de magistrados e na aprovação de leis. Ainda assim, mais de 2.000 anos atrás, a aristocracia romana não se constrangia em influenciar as eleições por meio de subornos e ameaças. A Constituição Francesa de 1795 (Regime do Diretório) previa que: "Todas as eleições devem ser realizadas por escrutínio secreto". O mesmo princípio foi mantido na Constituição Francesa de 1848. Ou seja: a preocupação com o segredo do voto não é de hoje. Em nada diferente da situação atual no Brasil e em boa parte do mundo. Por aqui, ainda persiste em grande número no chamado "Brasil profundo" o exercício do poder intimidador e constrangedor dos "coronéis" rurais, que impõem aos subordinados o controle do voto deles. Em muitos casos, os instrumentos usados para burlar o voto secreto e garantir a eleição de seus protegidos chega a requintes de criatividade. No tempo do voto de papel, o eleitor recebia uma cédula previamente preenchida e, sem abrir, apenas lhe cabia depositá-la na urna. Gerou até velha piada: o eleitor pergunta ao preposto do coronel que acabou de lhe entregar a cédula preenchida e pronta para ser depositada na urna: "Posso abrir pra saber em quem estou votando?" E a resposta: "Que é isso, sujeito! Não sabe que o voto é secreto?!"
Com o advento da entrega da cédula em branco exclusivamente ao eleitor pelo mesário, o método de controle se sofisticou. O primeiro eleitor ia até a cabine, fingia que votava, trazia a cédula em branco que era preenchida pelo "coronel" ou seu preposto. Essa cédula previamente preenchida era levada à urna e o eleitor trazia a cédula em branco que havia recebido do mesário. Essa cédula era novamente preenchida e levada pelo eleitor seguinte à urna. E assim se garantia, através desse voto conhecido como "voto de cabresto" que todos os votos seriam dados aos candidatos da preferência do "coronel". Mais recentemente, com a votação eletrônica, a Justiça Eleitoral proibiu o uso do celular na cabine de votação. Justamente para evitar que os "coronéis" modernos ordenem aos seus subordinados que fotografem a tela da urna eletrônica com o registro de seu voto e lhes mostrem ao retornar da cabine de votação para, assim, manterem o controle sobre as escolhas.
Infelizmente até hoje não se viu qualquer campanha da Justiça Eleitoral enfatizando o livre exercício do voto secreto, com informações sobre a liberdade de consciência e os efeitos saudáveis do segredo da vontade individual a ser depositada na urna
Os próprios eleitores precisam se conscientizar de uma realidade muito simples. Nada impede que digam que vão votar, sim, no(s) candidatos(s) do grupo. E, na hora do voto, façam uma escolha livre e exclusivamente afinada com sua própria consciência. Não se trata de traição. Agindo assim, estarão apenas sendo fiéis às suas consciências, e não à vontade imposta pelo líder do grupo, seja ele o patrão, o pastor ou os colegas de trabalho ou de copo. Ao serem perguntados em quem votaram, podem dizer com a consciência muito tranquila que votaram, sim, nos candidatos apoiados pelo grupo. Embora tenham votado no(s) candidato(s) ditado(s) pelas suas consciências. Sem remorsos. Pois é exatamente para isso que serve e para que foi criado o voto secreto.
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