Opinião

Não tenho nada contra o álcool. Ele é que tem contra mim

Não tenho nada contra o álcool. Ele é que tem contra mim

Meu nome é Victor, tenho 38 anos e sou alcoólatra.

É assim que me apresento, todos os dias, nas reuniões de Alcoólicos Anônimos.

Não é fácil dizer isso, muito menos escrever.

Já contei neste espaço sobre minha decisão de não mais beber, mas evitei usar essa palavra. Por receio do julgamento alheio? Pode ser.

A recuperação possui altos e baixos. Não é um processo linear. Há poucos dias, decidi me arriscar em um copo de gin. Depois do primeiro, não sei quantos vieram.

No dia seguinte, além da ressaca, veio a desesperança. Uma recaída tem o poder de fazer parecer que todo o esforço anterior foi inútil. Como se os meses em que não bebi deixassem de existir. Como se eu tivesse voltado ao ponto de partida.

Não voltei. Mas naquela manhã, não dava para saber a diferença.

Faz cerca de cinco anos que recebi o diagnóstico. Médicos e psicólogos me explicaram que é como se eu fosse alérgico a tudo que contém álcool. De um copo de vinho a um bombom de licor.

Não posso tomar a primeira dose, porque é justamente ela que dá lugar à segunda, à terceira e por aí vai. Quando começo a beber, perco a capacidade de decidir a hora de parar.

Não tenho nada contra o álcool. Ele é que tem contra mim. Todas as vezes em que tentei negociar com ele, perdi.

A dependência não é uma escolha. Nem se manifesta da mesma maneira em todas as pessoas.

Nunca faltei ao trabalho por causa do álcool. Também não bebia todos os dias. Meu consumo se concentrava nos fins de semana. Durante muito tempo, isso me pareceu suficiente para afastar qualquer suspeita de alcoolismo.

Os sinais, no entanto, apareceram ainda aos 20 e poucos anos. Quase sempre que bebia, não me lembrava de parte da noite anterior. No dia seguinte, precisava perguntar aos amigos o que havia dito, feito e até como tinha voltado para casa.

Há um nome para isso: amnésia alcoólica.

Eu não correspondia à imagem que fazia de um alcoólatra. O álcool é uma droga lícita, socialmente aceita e presente em quase todas as comemorações. Nesse ambiente, é difícil perceber quando alguma coisa saiu do padrão. Principalmente porque o próprio padrão admite excessos.

Houve momentos de revolta. Por que eu? Por que tanta gente pode beber, voltar para casa e seguir a vida normalmente, enquanto eu não sei sequer quantos copos tomei?

Para a minha geração, beber ainda parecia parte obrigatória da vida adulta.

Fui atrás de uma explicação para essa revolta e encontrei uma resposta parcial: o alcoolismo pode envolver uma predisposição genética. Isso não significa que alguém herde a certeza de desenvolver a doença, mas uma vulnerabilidade.

Tenho um tio que convivia com diferentes sofrimentos, entre eles o alcoolismo. Quando começava a beber na segunda-feira, continuava até a segunda seguinte.

Embora não tenha cura, há tratamento. Em primeiro lugar, não mais beber. É onde mora o desafio.

Tenho a sorte de contar com um plano de saúde que cobre consultas frequentes, um psiquiatra que ajusta a medicação sempre que preciso e um psicólogo que me acompanha nas piores semanas. Alexssandro, meu psicólogo, conhece a dependência também por experiência própria: está em recuperação há 25 anos.

Sei que essa rede de cuidado está longe de ser acessível a todos. O SUS oferece tratamento para a dependência de álcool, principalmente por meio dos CAPS AD. Mas a rede pública não dá conta da dimensão do problema.

Para mim, receber o diagnóstico foi um baque. Ao mesmo tempo, foi libertador. Pela primeira vez, alguém me dizia que aquilo não era apenas falta de controle ou ausência de limites. Eu tinha uma doença.

Foi também o que encontrei nos Alcoólicos Anônimos. O AA não é uma política pública nem substitui o Estado. Ainda assim, há décadas oferece gratuitamente aquilo que muitas pessoas não encontram em outro lugar: escuta, identificação e apoio.

Ali, admitir o alcoolismo não representa derrota. É o ponto de partida.

Amigos passaram a me procurar para saber se deveriam se preocupar com a forma como bebem. Tento estar à altura disso. Não como especialista, mas como alguém que já esteve do outro lado da pergunta. Não sou médico nem psicólogo. Posso ouvir, aconselhar e compartilhar o que aprendi com a minha própria experiência.

Falo também por esses amigos. E por quem ainda não conseguiu dar nome ao que está vivendo.

Escrever aqui me expõe enquanto indivíduo, mas também reforça meu compromisso com algo maior: minha recuperação.

Não vou desistir.