Opinião

O esgotamento do modelo baseado em commodities e os desafios para o Brasil

O esgotamento do modelo baseado em commodities e os desafios para o Brasil

O atual modelo de desenvolvimento brasileiro, fortemente ancorado no agronegócio e na mineração, apresenta sinais claros de esgotamento e expõe o país a riscos estruturais relevantes nos próximos anos.

Lamentavelmente, o debate sobre um verdadeiro Projeto de País tem estado ausente da agenda política e dos programas de governo, comprometendo o nosso futuro e progresso .

No agronegócio, a dinâmica competitiva mudou. A China acelerou sua produção de proteínas e já se posiciona como exportadora líquida de frango, avançando de forma consistente em sua estratégia de autossuficiência alimentar. Paralelamente, o continente africano, com aporte de investimentos e tecnologia, estrutura-se para se tornar um dos maiores produtores agrícolas globais, em condições muito semelhantes às do Cerrado brasileiro em sua fase de expansão.

Na mineração, o alerta vem do complexo de Simandou, na Guiné. Com reservas de altíssimo teor, equivalente ao de Carajás da Vale , com capacidade projetada de 120 milhões de toneladas por ano, sua entrada em operação terá impacto direto e estrutural na formação de preços no mercado mundial de minério de ferro.

Outro ponto central é a elevada dependência da economia em relação aos programas de transferência de renda. Somados, Bolsa Família, BPC e Auxílio Gás representam cerca de R$ 300 bilhões anuais, equivalentes a 2,3% do PIB. Sua reformulação é indispensável, com foco na porta de saída, na qualificação da mão de obra e no aumento da produtividade.

Diante desse quadro, o Brasil precisará se reinventar. Será imperativo:

1.Promover uma melhoria estrutural da infraestrutura logística;

2.Promover o reequilíbrio fiscal, com redução consistente do déficit público, revisão dos programas de complemento de renda e ampliação do espaço para investimento;

3.Elevar substancialmente a produtividade da economia, com foco na qualificação profissional e na meritocracia;

4.Aumentar o valor agregado no agronegócio e na mineração, por meio da industrialização e do processamento local, ampliando o portfólio de produtos com base em pesquisa e beneficiamento antes da exportação;

5.Diversificar a matriz de crescimento, com ênfase em indústria de maior valor agregado, tecnologia e serviços.

Neste último ponto, o turismo ilustra bem a oportunidade desperdiçada. Detentor de um dos maiores potenciais turísticos do planeta, o Brasil recebe apenas 9 milhões de turistas internacionais por ano e acumula um déficit de US$ 175 bilhões na conta corrente de turismo.

O enfrentamento desse novo ciclo exigirá quadros altamente qualificados, capazes de elaborar cenários prospectivos e de estruturar projetos consistentes e de longo prazo para o país.