Opinião

O desejo de ser herói

O desejo de ser herói

O Apanhador no Campo de Centeio (1951), primeiro romance do escritor norte-americano J. D. Salinger (1919-2010), versa sobre angústia, alienação, depressão, solidão, questões complexas de inocência, identidade, pertença, perda e conexão jovem, além de criticar a frivolidade da sociedade materialista.

O autor serviu na II Guerra Mundial, tornando-se escritor após retornar ao lar. Sua vastíssima e premiada obra literária ainda influencia gerações e o livro citado tem tiragem anual superior a 250 mil cópias. Apesar do sucesso, preferiu viver recluso, escrevendo longe dos holofotes.

O romance acontece em 1949, na semana anterior ao Natal. O protagonista, Holden Caulfield, é o narrador de 17 anos, revelando a expulsão, por mau desempenho acadêmico, do internato do Colégio Pencey, onde era aluno do Ensino Médio. Ele não era bagunceiro. Ao deixar a escola, decide vagar por Nova Iorque, retardando o encontro com a família e a hora de assumir mais essa expulsão diante dos pais. Holden passa três dias experimentando relações perigosas, muita bebedeira, ilícitos e solidão. Descreve-se como alguém sincero, bem humorado e também muito mal humorado, um "mentiroso sensacional". Contraditório, ambíguo. Odeia a falsidade e a hipocrisia, reagindo com ironia a ela. Reconhece-se como um garoto imaturo.

Sua família tem posses. Sua mãe sofre profundamente pela morte precoce de seu filho Allie, vítima de câncer. Seu irmão mais velho, identificado como "D. B.", é escritor e morador em Los Angeles; a irmã caçula tem 13 anos, Phoebe, por quem nutre imensa ternura. A lembrança do irmão falecido permanece viva. Holden não vê sentido em nada do que é obrigado a fazer; reclama de tudo e de todos; nada o agrada. Embora se sinta deprimido, ele mais parece um jovem revoltado com profundo vazio na alma. A ausência de expectativa futura era (ou é) um estado comum aos jovens pós 1946. As questões existenciais humanas, agora hiperdimensionadas, levam muitos à alienação, ou ao desespero. Sua narração adota um tom muito ranzinza e amargurado.

Questionado por Phoebe sobre o que gostaria de ser e fazer, Holden revela um sonho: ele se vê como o único guardião de inúmeras crianças correndo e brincando livres em um CAMPO DE CENTEIO à beira do precipício. Seu trabalho é PEGAR E SALVAR as crianças, afastando-as da beira do penhasco. Para Holden, ser um "APANHADOR" significava salvar as crianças, EVITANDO A PERDA DE SUA INOCÊNCIA. Ele desejava realizar algo útil, significativo.

Ao visitar o professor de Inglês aposentado, Antolini, este lhe afirma que ser homem maduro é viver humildemente por uma causa, em vez de morrer nobremente por ela. Tal fala alimenta o desejo de Holden em ser herói: "APANHADOR NO CAMPO DE CENTEIO", simbolicamente, salvando crianças da exposição aos males e crueldades da vida adulta.

Não temos apanhadores guardiães da inocência das crianças, nem heróis para defendê-las da maldade; só predadores, lançadores de vidas no penhasco.