Numa reunião familiar, pensou-se num grupo de 10 escritores judeus, naturalmente incluindo o meu modesto nome. Vieram à tona especialistas como Clarice e Elisa Lispector, Pedro Bloch, ZeviGhivelder, Celso Lafer, José Mindlin, Moacir Scliar, Gilberto Schwartsman e o Rabino Nilton Bonder. É claro que existem muitos outros, mas a ideia é ficar no limite de dez.
Para pertencer à Academia Brasileira de Letras é indispensável ter nascido no Brasil, como rezam os seus Estatutos. Isso exclui nomes respeitáveis como Pedro Bloch e as irmãs Lispector, todos nascidos na Ucrânia, mais particularmente na cidade de Kiev.
As razões pelas quais esses profissionais vieram parar no Brasil sao as mais variadas, em geral o antissemitismo praticado em seus países de origem, o que é de se lamentar.
No livro "Tópicos de Judaísmo", por mim editado em 2023, analiso o olhar judaico em Machado de Assis: "Ele evoca a beleza bíblica, sem esquecer o drama profundo vivido pelos cristãos-novos". E numa premonição genial: "Israel tem vertido um mar de sangue, embora à tona delle verdeja a nossa fé, a fé que anima o povo, flor suave e bella, que o medo nao desfolha, nem já seca, ao vento mau da cólera dos homens."
Em "A crista-nova", há elementos de primeira ordem para recordar as sequelas de um período de intolerância quase inacreditável. Machado valoriza esse pensamento, num comprometimento com as preocupações permanentes com o povo judeu, nas suas ideias de Direito, Justiça e Liberdade. A fidelidade ao povo de Israel transparece no poema quando o pai aconselha: "Ama a lei da natureza eterna, ama um homem que será da nossa raça."
No poema de Machado, Nuno está impotente diante do Santo Ofício. No final, invertendo as posições, Angela (a filha) evoca o povo judeu e a sua imperecibilidade: "Verdeja a nossa fé, a fé que anima o eleito povo. A jovem crista-nova retorna ao seio do seu povo, o que se dá através do sacrifício." Como se vê, Machado de Assis tinha bem presente a existência do povo de Israel, e assinalada isso em sua obra.
Menu