Opinião

Atraídos pelo abismo

Atraídos pelo abismo

O Brasil parece atraído pelo abismo. Kierkegaard chamou de vertigem da liberdade a inquietação diante do precipício: não é apenas o medo de cair, mas a consciência perturbadora de que podemos dar o passo que nos fará cair. Milan Kundera foi ainda mais preciso ao distinguir o medo da queda da vertigem: nela existe algo que nos chama para baixo. O abismo assusta, mas também atrai.

Talvez poucas imagens descrevam tão bem o Brasil de hoje. Justamente quando o mundo abre uma janela extraordinária para nós, parecemos ocupados demais olhando para o precipício.

Nunca tivemos tantos ativos valorizados simultaneamente. Alimentos, água, petróleo, energia renovável, minerais críticos, biodiversidade, território, escala de mercado. A transição energética aumenta o valor estratégico de recursos que possuímos; a reorganização das cadeias produtivas procura países confiáveis e de grande escala; nossa posição permite conversar com Estados Unidos e China, Europa e Índia, Oriente Médio e África. O mundo precisa de muito daquilo que o Brasil tem.

E caminhamos na direção contrária.

A economia conhece a maldição dos recursos naturais: a abundância pode produzir acomodação, rentismo e disputa pela riqueza existente em vez da obsessão por criar riqueza nova. Talvez tenhamos desenvolvido uma versão brasileira, mais abrangente: a maldição da supernatureza.

Temos tanto que nos acostumamos à ideia de que haverá sempre outra oportunidade. Perdemos um ciclo e esperamos o seguinte. Desperdiçamos uma década e sobrevivemos. Adiamos reformas, bloqueamos investimentos, aumentamos custos e continuamos de pé. Terra, água, sol, vento, petróleo, minérios, florestas e agricultura permanecem ali como uma espécie de seguro contra nossos próprios erros.

A abundância que deveria nos impulsionar talvez tenha também nos ensinado a suportar a mediocridade.

Austregésilo de Athayde dizia que "o Brasil era maior do que o abismo". Talvez seja. Mas ser maior que o abismo não significa não poder passar décadas entalado nele.

E o abismo não é uma abstração. Está nas dezenas de milhões de brasileiros inadimplentes, nos milhões de empresas endividadas, no crédito proibitivo, no investimento insuficiente, na baixa produtividade e numa classe média que luta tanto para ascender quanto para não retroceder. Está nos projetos que não saem do papel, nas empresas que deixam de investir e nos empregos que deixam de existir.

Como pode um país tão rico produzir tanta escassez?

Conhecemos boa parte das respostas. Desequilíbrio fiscal cobra juros; juros altos sufocam investimento; baixa produtividade limita salários; insegurança jurídica afasta capital; burocracia paralisa projetos; educação insuficiente perpetua desigualdades. Não estamos diante de um mistério econômico. Estamos diante de escolhas.

E chegamos a 2026 discutindo outra coisa.

Corremos o risco de realizar uma eleição dentro do abismo. Discutimos candidatos, pesquisas, alianças, rejeições e estratégias. Direita, esquerda e centro disputam o poder enquanto a pergunta decisiva permanece em segundo plano: qual é o projeto para tirar o Brasil daqui?

Podemos trocar os ocupantes do poder e permanecer no mesmo lugar.

Essa é a eleição do abismo: candidatos disputando a administração de uma realidade que deveria ser transformada; baixo crescimento, endividamento e fragilidade da classe média tratados como circunstâncias a administrar, não como condições que temos a obrigação de superar.

Há nisso uma diferença entre imoralidade e amoralidade. A imoralidade é visível: corrupção, fraude e privilégios têm responsáveis e vítimas. A amoralidade é mais silenciosa. Decisões podem ser legais, interesses legítimos e procedimentos corretamente cumpridos enquanto o resultado coletivo é o empobrecimento.

O investimento que não aconteceu não protesta. A empresa que deixou de nascer não aparece. O emprego que não foi criado não tem sindicato. O custo da não prosperidade é silencioso.

A questão moral de um país ainda desigual não pode ser apenas como repartir a riqueza existente. É como criar riqueza suficiente para que milhões possam ascender e permanecer numa classe média robusta. Prosperidade deveria ser compromisso anterior à disputa eleitoral. Direita e esquerda podem divergir sobre os caminhos; não deveriam divergir sobre o destino.

Temos recursos, escala, conhecimento e uma oportunidade internacional excepcional. Não fomos condenados pela geografia; fomos extraordinariamente favorecidos por ela. Talvez essa seja justamente a nossa maldição da supernatureza: possuir riquezas suficientes para sobreviver durante muito tempo aos próprios erros e, de tanto sobreviver, confundir sobrevivência com sucesso.

Kierkegaard nos deixou a vertigem. Athayde, a esperança.

O Brasil é maior que o abismo. Talvez sempre tenha sido. Nossa tragédia é outra: somos grandes o suficiente para sobreviver dentro dele. A eleição de 2026 deveria decidir não quem vai administrá-lo, mas como finalmente sairemos dele.