O Brasil atravessa um momento marcante em sua história econômica recente. Dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), revelam que o percentual de famílias brasileiras com dívidas ultrapassou a marca de 80%.
O cenário expõe um paradoxo estrutural: mesmo em um ambiente de mercado de trabalho aquecido e crescimento da renda média, o orçamento doméstico continua extremamente pressionado pelo uso contínuo de crédito para custear o consumo cotidiano.
Para entender o fenômeno, é preciso diferenciar o conceito de dívida do conceito de inadimplência.
Famílias endividadas, refere-se a ter compromissos financeiros a vencer (como parcelas de cartão de crédito, empréstimo consignado, financiamento de veículos ou imóveis).
Estar endividado não significa, necessariamente, estar com o nome negativado, mas sim comprometer uma fatia do orçamento mensal.
Famílias inadimplentes, são as que têm compromissos financeiros atrasados (que não são pagos no vencimento).
Cerca de 30% dos lares no país registram contas em atraso, e uma parcela significativa dessas famílias relata não ter condições de quitar os débitos no curto prazo.
Com quase um terço do orçamento retido para pagamento de dívidas acumuladas, o poder de compra diminui para outros setores do comércio e serviços, desacelerando a atividade econômica no longo prazo.
O endividamento excessivo traz reflexos diretos na saúde mental dos trabalhadores, associando-se a quadros de estresse, ansiedade e queda de produtividade.
A tentativa de quitar uma dívida cara recorrendo a novos empréstimos com taxas ainda maiores gera um ciclo contínuo de endividamento do qual a família tem extrema dificuldade de sair sem intervenção ou renegociação estruturada.
Superar o quadro de endividamento recorde exige tanto iniciativas do poder público quanto ações individuais de organização.
Portanto, priorizar a quitação das modalidades de crédito mais caras (cartão de crédito e cheque especial) por meio de portabilidade ou programas de renegociação com desconto, é fundamental.
Outra saíde é mapear custos fixos e variáveis, eliminando gastos invisíveis e contendo o uso de novos parcelamentos até que o orçamento volte a ter margem líquida.
Para tentar equilibrar-se nessa gangorra, nunca vista na nossa história, desenvolver a cultura do planejamento e do consumo consciente para evitar que novos ciclos de endividamento voltem a ocorrer.
Como diziam nossos avós: só coloque a mão onde possa alcançar.
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