Opinião

O que uma criança não consegue dizer

O que uma criança não consegue dizer

Não raro, escuto um adulto mencionar a saudade que sente de quando era criança. Quando lembramos da infância, parece que ficam apenas as brincadeiras, a escola e a falta de responsabilidades.

Mas talvez a memória seja generosa demais com a infância. Crianças também têm medo, insegurança, tristeza, solidão. Podem sofrer sem saber explicar o que sentem e, muitas vezes, sem que os adultos ao redor reconheçam aquilo como sofrimento.

Um estudo publicado recentemente na The Lancet Regional Health Americas ajuda a olhar para essa infância que nem sempre aparece nas lembranças dos adultos. Pesquisadores analisaram dados de brasileiros de 5 a 29 anos e estimaram que 12,06% das crianças de 5 a 9 anos têm pelo menos um transtorno mental. A ansiedade é o mais frequente nessa idade, atingindo 5,57% delas, seguida pelo TDAH, com 4,48%. Entre os 10 e os 14 anos, o percentual de crianças e adolescentes com algum transtorno mental sobe para 18,81%. Dos 15 aos 19, chega a 23,58%.

A ansiedade aparece já na infância e permanece no topo ao longo da adolescência, atravessa a maioridade e segue pela juventude até os 29 anos.

Mas por que uma criança sofre com ansiedade? Em tese, ela não carrega as responsabilidades de um adulto. Não precisa pagar contas, manter um emprego ou sustentar uma família.

A lógica adulta nem sempre serve para explicar o sofrimento de uma criança. Medos, conflitos em casa, pressão na escola, rejeição ou insegurança podem assumir uma dimensão muito maior para quem ainda está aprendendo a lidar com o que sente.

O que esses números mostram é que o sofrimento psíquico não começa na maioridade. Mas o nosso olhar sobre ele ainda parece chegar tarde.

O Brasil avançou na proteção de crianças e adolescentes, mas a saúde mental ainda ocupa pouco espaço nesse cuidado. O Estatuto da Criança e do Adolescente assegura o direito à saúde, e o país criou políticas específicas para esse período da vida. Ainda assim, a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Criança, voltada aos primeiros nove anos, não aborda explicitamente a saúde mental.

Olhar mais cedo não significa transformar qualquer tristeza, medo ou dificuldade em diagnóstico. Criança também fica triste. Adolescente também se irrita. Nem tudo é doença.

O problema é quando isso passa a interferir na rotina, nas relações, no aprendizado, no sono, na vontade de fazer as coisas. E, ainda assim, segue sendo tratado como fase, preguiça, manha ou falta de disciplina.

A escola pode ter um papel importante nisso. Não para transformar professor em psicólogo, mas porque é ali que muitas mudanças aparecem primeiro. Uma criança que se isola, um adolescente que começa a faltar, uma queda brusca no rendimento. Nada disso, isoladamente, fecha diagnóstico algum. Mas pode ser um sinal de que alguma coisa não vai bem.

Os autores do estudo defendem justamente que as portas de entrada para o cuidado sejam ampliadas para além dos serviços tradicionais de saúde. A escola aparece como um desses espaços possíveis. Quanto mais cedo o sofrimento é percebido, maior a chance de evitar que ele se agrave.

Há um dado ainda mais grave. O estudo estima 5.402 mortes por autolesão por ano entre brasileiros de 10 a 29 anos. A partir dos 15, ela aparece como a terceira causa de morte prematura entre todas as causas analisadas.

Christian Kieling, um dos autores do estudo, é enfático: "Qualquer número para uma criança em termos de suicídio está acima do que deveria ser aceitável pela sociedade."

Não é novidade que o Brasil ainda dedica pouca atenção e recursos à saúde mental. O estudo escancara a urgência, a emergência, de políticas públicas capazes de agir antes que o quadro piore.

A atenção básica deveria ser uma das principais portas de entrada para esse cuidado. É onde crianças e adolescentes chegam por diferentes motivos, onde famílias são acompanhadas e onde muitos sinais poderiam ser percebidos cedo. Mas o próprio estudo alerta que manifestações iniciais de desconforto emocional, comuns entre os mais jovens, ainda são frequentemente ignoradas pelos serviços de saúde.

Os CAPS são serviços especializados em saúde mental. Mas o cuidado não deveria começar apenas quando alguém chega até eles. Muitas vezes, os primeiros sinais aparecem antes, numa consulta na unidade básica, numa conversa com a equipe de saúde ou até numa queixa que parece não ter relação direta com saúde mental.

É justamente nesse intervalo, entre os primeiros sinais e a chegada a um CAPS, que muita coisa pode se perder. Um sofrimento ainda difuso pode ser minimizado, confundido com comportamento ou simplesmente não reconhecido como uma questão de saúde. Quando isso acontece, o cuidado começa tarde.

Adultos costumam esperar que crianças expliquem o que sentem com uma clareza que nem nós temos. Nem sempre uma criança vai chegar em casa dizendo que está sofrendo de ansiedade. Ela pode simplesmente não saber dar nome ao que está sentindo.

É justamente quando faltam palavras que os adultos precisam prestar mais atenção aos sinais.