Tenho medo de envelhecer. Não me orgulho disso, mas tenho. Sei que não estou sozinho. A velhice ainda é cercada de estereótipos: a avó fazendo tricô, o aposentado jogando baralho na praça e as rugas que insistimos em esconder.
Há uma contradição nisso tudo. Nunca tivemos tanta possibilidade de viver mais. Em 1940, a expectativa de vida do brasileiro era de 45,5 anos. Hoje, é de 76 anos, em média. Enquanto celebramos os avanços que prolongam a vida, fazemos o possível para não parecer que estamos envelhecendo.
As clínicas de estética se multiplicaram. Aplicações de botox são oferecidas por toda parte, muitas vezes a pessoas cada vez mais jovens. "É pra evitar que apareçam as marcas de expressão", explicam profissionais do ramo. Rugas deixaram de ser tratadas apenas como sinais naturais do tempo e passaram a ser apresentadas como defeitos que precisam ser corrigidos. Não há problema em cuidar da aparência ou recorrer a procedimentos estéticos. O sintoma está na promessa, cada vez mais comum, de uma juventude prolongada, permanente e, evidentemente, irreal.
Sou um grisalho precoce. Aos 25 anos, no máximo, eu já ostentava alguns fios brancos. Hoje, eles tomaram conta, e está tudo bem. Com frequência, ouço que o cabelo grisalho deixa o homem charmoso. Para as mulheres, a passagem do tempo sempre foi menos generosa. Durante muito tempo, deixar os cabelos brancos à mostra era quase impensável. Isso começou a mudar. Cada vez mais mulheres abandonam a tintura e assumem os fios naturais, num movimento que amplia as possibilidades de envelhecer sem esconder a própria idade.
É uma evolução que merece ser reconhecida. Ainda assim, a escolha conserva algo de transgressor justamente porque não está livre de julgamento. Não faltam comentários disfarçados de preocupação: "Fulana está descuidada, não está?". O cabelo é o mesmo. O tempo também. O julgamento é que muda.
A passagem do tempo não deixa apenas marcas no corpo. Deixa também repertório. Esse costuma ser o lado esquecido da equação. Mudam a forma como enxergamos o mundo, a importância que damos a certos problemas e a maneira como lidamos com aquilo que antes parecia insuportável. Nem todo mundo se torna sábio com o passar dos anos. Ainda assim, ninguém chega aos 60, 70 ou 80 sendo exatamente a mesma pessoa que era aos 20.
Esse repertório nem sempre se transforma em reconhecimento. No mercado de trabalho, muitas vezes ocorre o contrário: a experiência passa a ser confundida com desatualização, e a idade, com incapacidade de aprender. Esse preconceito tem nome: etarismo.
Apenas nas últimas duas semanas, soube de duas ex-colegas de trabalho demitidas no mesmo dia, sob o argumento de uma reestruturação na empresa. Ambas têm mais de 65 anos. Isso não basta para concluir que a idade determinou as demissões, mas a coincidência não pode ser ignorada. Em um mercado que ainda associa juventude a capacidade, quem envelhece pode se tornar o primeiro nome de uma lista de cortes.
Não basta esperar que as empresas reconheçam espontaneamente o valor desses profissionais. Cabe ao Estado formular políticas que estimulem sua permanência nas empresas e a convivência entre diferentes gerações. Uma população que trabalha e vive por mais tempo exige mais do que discursos contra o preconceito.
Para quem é jovem hoje, porém, envelhecer também pode significar um futuro de poucas garantias. Durante décadas, a aposentadoria representou o descanso depois de uma vida inteira de trabalho. Agora, para boa parte dessa geração, ela parece cada vez mais distante.
Depois da reforma da Previdência de 2019, aumentaram as exigências para a concessão do benefício. Não por acaso, muitos dizem, entre o humor e a resignação, que provavelmente nunca irão se aposentar. O medo de envelhecer, portanto, não mora apenas no espelho. Mora também na insegurança sobre como será possível viver quando o corpo já não acompanhar o mesmo ritmo.
O Brasil envelhece rapidamente. Hoje, são cerca de 33 milhões de pessoas com 60 anos ou mais. Nas próximas décadas, esse grupo deve ultrapassar um terço da população. Mesmo assim, seguimos tratando o envelhecimento como algo incômodo, e não como parte do caminho de quem continua vivo.
O problema não é envelhecer. É envelhecer em uma cultura que transformou a juventude em medida de valor. Aprendemos a desejar uma vida longa e, ao mesmo tempo, a rejeitar os sinais de que estamos atravessando suas diferentes fases.
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