Opinião

O inimigo útil

O inimigo útil

O ensaio de Umberto Eco, Construir o inimigo, nomeia a coletânea do autor italiano, publicada em 2021 pela Ed. Record, no Brasil. O ensaio versa sobre a necessidade humana de construir um inimigo imaginário, útil para esconder as incompetências e fracassos, atribuindo ao OUTRO a culpa pelos erros. Também inúmeros governantes construíram inimigos úteis e imaginários ao longo da história.

O autor fez uma retrospectiva histórica desde a antiguidade clássica. Entre tantos exemplos, citou a situação dos cristãos, pois, embora não delinquissem, eram considerados inimigos de Roma apenas por sua crença religiosa. E por quê? Eco explica que, quando um grupo minoritário quebra a hegemonia de um governo autoritário, isso ameaça o poder vigente. O inimigo pode ser o bode-expiatório, servindo para apagar a culpa das transgressões individuais e coletivas.

Eco destaca características atribuídas ao inimigo interno (dentro do grupo), ou externo (de fora). Em geral, ele é percebido como monstruoso, estranho, malvado, cruel, imperialista... a ele é atribuído tudo que o DESUMANIZE, é a imagem do vilão. E não estamos falando de histórias fictícias. Aconteceu no leste europeu no início do séc. XX. Lenin e Stalin construíram o inimigo externo para dominar e impor seu regime totalitário e criar a Rússia Soviética; na Alemanha (1933-1945), os inimigos eram internos: todas as pessoas não arianas deviriam ser exterminadas; vemos o inimigo externo nas guerras religiosas e nos regimes totalitários terceiro-mundistas da atualidade.

Qual a utilidade de criar um inimigo? O inimigo é útil para consolidar o sentimento de identidade social e nacional, possibilitar a permanência do governante no poder e permitir que ele delegue seus erros ao OUTRO e como desculpa para seus fracassos. Eco recorda: quando o grande inimigo soviético dissolveu-se, os EUA perceberam o desmanche de sua identidade, no entanto, Bin Laden deu a Bush a possibilidade de criar novos inimigos, unificando o sentimento de identidade nacional e resgatando o seu próprio poder. E cita os skinheads de Verona, os inimigos eram qualquer um não pertencente ao grupo. Ter um inimigo é importante para confrontar, medir e mostrar o sistema de valores. A figura do inimigo faz parte dos processos de civilização.

A necessidade é inata aos humanos. A imagem do inimigo pode ser deslocada para uma força natural ou social, causada por um sentimento de inferioridade, inveja, ou ressentimento que pareça uma ameaça e precise ser vencido. Pode ser a prosperidade do outro, a poluição ambiental ou a fome em países subdesenvolvidos. Portanto, quando o inimigo não existe, é preciso construí-lo. Não importa quem será o inimigo. Caim, por inveja e despeito, matou Abel. No fenômeno natural de criação do inimigo ameaçador, é importante o processo de produção e DEMONIZAÇÃO do inimigo.

Só podemos nos conhecer na presença de um OUTRO, porém é mais fácil considerar esse OUTRO insuportável do que a nós mesmos!