O editorial publicado recentemente pelo Estadão sobre Estrada para o Futuro recolocou em evidência um tema que há algum tempo perdeu espaço no debate público brasileiro: a importância de projetos nacionais de longo prazo. Independentemente da posição que se adote em relação ao documento ou aos seus autores, sua divulgação suscita uma questão institucional relevante: qual é o papel de plataformas de governo estruturadas na formulação de políticas públicas, no planejamento do desenvolvimento de um país e na qualificação das eleições?
Estrada para o Futuro foi coordenado pelo ex-presidente Michel Temer e elaborado com a colaboração de especialistas de diferentes áreas. Tive a honra de contribuir com o capítulo dedicado à tecnologia. O documento reúne propostas para economia, educação, segurança pública, infraestrutura, tecnologia, saúde, meio ambiente, relações internacionais e modernização do Estado. Sua concepção dialoga diretamente com Uma Ponte para o Futuro, apresentado antes do início do governo Temer e utilizado como referência para parte da agenda de reformas entre 2016 e 2018.
A relação entre os dois documentos ajuda a compreender seu significado. Uma Ponte para o Futuro surgiu em um contexto de grave crise econômica e institucional e propôs diretrizes voltadas ao equilíbrio fiscal, à modernização do Estado e à recuperação da confiança na economia. Naquele período, foram aprovadas medidas como a Emenda Constitucional do teto de gastos, a reforma trabalhista, mudanças no ensino médio, iniciativas do Programa de Parcerias de Investimentos e a Lei das Estatais. Outras propostas, entre elas a reforma da Previdência, tiveram continuidade e foram aprovadas posteriormente. Independentemente da avaliação sobre seus resultados, tratou-se de um documento programático que dialogou diretamente com uma agenda concreta de governo.
Essa experiência remete a uma questão mais ampla: qual é a função de um plano de país? Em administração pública, plataformas de governo fazem diagnósticos, estabelecem prioridades e indicam objetivos que ultrapassam as urgências do cotidiano. Não eliminam divergências políticas; tornam-nas mais transparentes ao permitir que propostas sejam debatidas, aperfeiçoadas, criticadas e, posteriormente, avaliadas pela sociedade. Também explicitam as intenções de quem pretende governar. Cria-se cultura de participação política, e não de alienação raivosa.
É nesse contexto que surge o conceito de estadismo. Na literatura política, o estadista é frequentemente associado à liderança capaz de combinar respostas às necessidades imediatas com uma visão de longo prazo para o desenvolvimento nacional. A administração do presente continua indispensável, mas passa a ser orientada por objetivos permanentes relacionados às instituições, à competitividade, à educação, à infraestrutura, à inovação, à segurança e ao ambiente econômico.
O debate sobre planejamento ganha relevância em um cenário internacional marcado por transformações geopolíticas, tecnológicas e econômicas. O Brasil reúne tudo: atributos expressivos, mercado interno, capacidade agroindustrial, recursos naturais e matriz energética diversificada, mas também enfrenta desafios persistentes ligados à produtividade, à infraestrutura, ao ambiente de negócios, ao equilíbrio fiscal, ao custo do crédito, à educação, à desigualdade e à qualidade das instituições.
Nesse contexto, documentos como Estrada para o Futuro, apresentado como uma contribuição ao debate público e às diferentes candidaturas, podem ser compreendidos como instrumentos destinados a organizar diagnósticos e propostas para discussão. Seu valor institucional está em oferecer uma agenda explícita que possa ser conhecida, debatida, comparada e, posteriormente, confrontada com os resultados alcançados.
Mais além de discutir um documento específico, esse debate convida a refletir sobre o amadurecimento da democracia brasileira. Plataformas de governo tornam compromissos públicos, permitem maior transparência e oferecem referências para que a sociedade acompanhe prioridades e cobre resultados. Em um país de dimensões continentais e enormes oportunidades, discutir projetos de longo prazo não elimina as diferenças políticas; contribui para que elas se expressem de forma mais estruturada. Afinal, reclamar da falta de rumo é insuficiente se não houver propostas organizadas para orientar o debate nacional. O presidente Temer ofereceu duas: a Ponte e, agora, a Estrada para o Futuro.
Menu