Correio da Manhã
Opinião

Nenhuma doença vira moda

Nenhuma doença vira moda

Lembro de um colega de escola com o mesmo nome que o meu. Tinha poucos amigos, falava baixo e tirava ótimas notas. Era alvo de bullying praticamente todos os dias. Havia um apelido que ele odiava — e justamente por isso o chamavam assim. Os professores viam. Os inspetores viam. Embora bem intencionados, nos anos 1990 eles realmente não sabiam o que fazer. Não havia nome para o que ele tinha. Nem tratamento adequado. Só bem mais tarde uma amiga me contou que ele tem autismo.

Naquela época, ninguém chamava assim. Ninguém chamava de nada.

Trinta anos depois, ouço duas senhoras no metrô do Rio comentarem sobre uma conhecida que acabara de receber diagnóstico de autismo. "Agora está na moda", diz uma. A outra concordou.

Pensei no meu colega de escola.

O que essas senhoras chamam de moda tem outro nome: demanda reprimida. Durante décadas, autismo e TDAH foram subdiagnosticados no Brasil, especialmente em mulheres, em pessoas de baixa renda e em regiões sem acesso a especialistas. O que parece uma epidemia recente é, na verdade, uma fila enorme de pessoas que sempre existiram. E que nunca foram vistas.

Crescer sem diagnóstico tem um custo que não aparece em nenhuma estatística. É a criança chamada de bagunceira que simplesmente não consegue parar quieta. O adolescente tachado de antissocial que só acha o mundo barulhento demais. O adulto que passou a vida inteira achando que o problema era ele. O sofrimento existe. O que falta é o nome.

E o nome, no Brasil, custou caro para chegar a quem não tinha plano de saúde. Autismo e TDAH foram, por muito tempo, diagnósticos de consultório particular, de escola que percebeu, de família que tinha acesso. Quem não tinha foi chamado de outra coisa: preguiçoso, difícil, problemático. Cresceu carregando uma explicação errada para algo que nunca foi culpa sua.

Chegar à vida adulta sem diagnóstico tem consequências que vão além da infância. São anos de empregos perdidos por dificuldade de concentração que ninguém entendeu. Relacionamentos que não sobreviveram a comportamentos que a própria pessoa não sabia explicar. Depressão e ansiedade que chegaram depois, como consequência de décadas sem nome para o que se sentia.

Quando o diagnóstico finalmente chega, mesmo décadas depois, algo muda. Autismo e TDAH não impedem uma vida plena. Em muitos casos, pessoas com essas condições trabalham, estudam, criam filhos, constroem carreiras. O diagnóstico não as define: explica uma parte de como funcionam. O que o subdiagnóstico impede não é a vida. É a compreensão dela.

Os números ajudam a entender a dimensão do que ficou para trás. Segundo o Censo 2022 do IBGE, divulgado em 2025, 2,4 milhões de brasileiros declararam ter diagnóstico de autismo. Mas esse número ainda não mostra tudo: o subdiagnóstico na população adulta ainda é uma realidade.

Na educação, as matrículas de estudantes com autismo cresceram 44,4% em 2024, chegando a 918.877, segundo o Censo Escolar. A Organização Mundial da Saúde estima que 3% da população mundial tem TDAH.

Esses números não descrevem uma moda. Descrevem o que sempre esteve aqui.

Dizer que "virou moda" aquilo que demoramos décadas para enxergar é uma forma de repetir a invisibilidade.

Se eu encontrasse hoje aquele colega de escola, pediria desculpas. Aos 12 anos, eu não entendia o que ele enfrentava. Ri quando não devia. Fiquei em silêncio quando não devia.