Correio da Manhã
Opinião

Menos burocracia, mais moradias

Menos burocracia, mais moradias

Imagine abrir uma empresa e descobrir que seu produto precisa obedecer a uma legislação diferente em cada um dos 645 municípios do estado de São Paulo. Agora amplie esse cenário para os mais de 5 mil municípios brasileiros. Parece inviável, mas essa é justamente a realidade da construção civil. Seria como exigir que uma montadora fabricasse um modelo diferente de automóvel para cada cidade do país.

Quem atua na construção civil convive diariamente com esse cenário. O setor ainda precisa lidar com centenas de códigos de obras, normas, interpretações e procedimentos distintos. Em muitos casos, um empreendimento aprovado em um município precisa ser redesenhado para atender às exigências da cidade vizinha. Essa fragmentação reduz a produtividade, aumenta os custos, prolonga os prazos e, no fim, encarece o imóvel para o comprador, especialmente o de menor renda.

Em um país que ainda enfrenta um elevado déficit habitacional, essa ineficiência deixa de ser apenas um problema do setor. Ela afeta diretamente a capacidade de o Brasil produzir moradias em escala, com qualidade e a preços mais acessíveis.

A industrialização da construção deixou de ser uma tendência para se tornar uma necessidade. A escassez de mão de obra, o envelhecimento dos trabalhadores e a crescente demanda por habitação exigem um modelo mais eficiente de produção. O setor já dispõe de soluções capazes de elevar significativamente a produtividade, como fachadas pré-fabricadas, banheiros prontos, estruturas modulares e processos digitais.

Participei recentemente do Summit da Construção, promovido pela Abrainc, que contou com a presença do ministro das Cidades, Vladimir Lima. O encontro deixou claro que o Brasil já dispõe de tecnologia e capacidade produtiva para avançar em ritmo muito mais acelerado. A padronização de processos pode reduzir entre 15% e 20% o custo direto das obras, gerando ganhos expressivos de produtividade para um setor estratégico e ampliando a oferta de moradias, especialmente no âmbito do programa Minha Casa, Minha Vida.

O problema é que muitas dessas soluções ainda esbarram em regras que não acompanharam a evolução tecnológica. Em São Paulo, por exemplo, fachadas industrializadas dependem do uso de gruas para instalação. No entanto, a legislação municipal impede que a lança do equipamento ultrapasse os limites do terreno, ao contrário do que ocorre em diversas cidades no exterior. Há também restrições logísticas que obrigam a entrega de determinados materiais apenas no período noturno, o que limita a operação e reduz a eficiência dos canteiros.

O SindusCon-SP entende que padronizar não é engessar. É remover entraves desnecessários para que a construção civil brasileira possa produzir mais, melhor e com menor custo. Se o país quer enfrentar seu déficit habitacional de forma séria, precisa começar pela modernização das regras que hoje atrasam o setor.