Correio da Manhã
Opinião

Ultracrepidários brasileiros

Ultracrepidários brasileiros

Ne supra crepidam sutor iudicaret.

A velha advertência latina recomendava que o sapateiro não opinasse além da sandália. Dela nasceu uma palavra quase esquecida e surpreendentemente atual: ultracrepidário, aquele que fala com absoluta convicção sobre aquilo que desconhece. Talvez poucas palavras descrevam tão bem uma parte do ambiente público em que vivemos.

Basta abrir uma rede social para encontrá-los aos milhares. Economistas de um minuto, juristas de um vídeo, estrategistas militares de um comentário, especialistas instantâneos em educação, saúde, segurança ou política internacional. Umberto Eco observou que as redes sociais deram voz a multidões que antes limitavam suas certezas à mesa do bar. Muito antes dele, José Ortega y Gasset advertia para o risco de uma sociedade em que a convicção substitui o conhecimento. A frase popularmente atribuída a Nelson Rodrigues, segundo a qual os idiotas dominariam o mundo pela quantidade, e não pela inteligência, continua sendo repetida porque traduz um desconforto do nosso tempo.

Mas talvez estejamos exagerando no diagnóstico. O ultracrepidário não seria a doença, mas, sim, a febre, a dor e a reação, mesmo o país tendo índices educacionais sofríveis.

As redes sociais também não são a origem do problema. Descobriram apenas que a indignação prende a atenção, e essa atenção produz engajamento, e engajamento produz receita. O algoritmo monetiza a frustração; não a inventa. A pergunta importante, portanto, não é porque os algoritmos funcionam assim, mas por que milhões de brasileiros oferecem diariamente tanta frustração para ser transformada em negócio.

A resposta talvez esteja menos na tecnologia do que na ausência de um horizonte comum. Nenhuma sociedade vive apenas de brigas, vazios, escândalos, conflitos e denúncias. Ela precisa acreditar que estudar amplia oportunidades, que trabalhar melhora a vida, que empreender encontra regras previsíveis, que inovar vale a pena e que o esforço individual pode contribuir para um futuro melhor. Precisa, sobretudo, de um projeto de país suficientemente claro para que cada cidadão consiga enxergar onde entram sua família, sua cidade, sua profissão, sua empresa e sua comunidade.

Durante parte da nossa história, essa percepção existiu. As grandes imigrações dos séculos XIX e XX, a industrialização e a expansão da classe média alimentaram a convicção de que havia um lugar para o esforço individual na construção nacional. Talvez nunca o tenhamos chamado de Brazilian Dream, mas existia um sonho brasileiro, imperfeito como todos os sonhos coletivos, porém forte o suficiente para organizar expectativas e produzir esperança.

Hoje discutimos muito mais o conflito do que o destino. Produzimos prognósticos em abundância sem antes construir diagnósticos consistentes. Debatemos vídeos, algoritmos, fake news e guerras culturais com enorme intensidade, enquanto perguntas essenciais quase desapareceram: que Brasil queremos construir? Como elevar a produtividade, a competitividade, o investimento, a segurança jurídica, a liberdade de empreender, o crédito acessível e a mobilidade social? Como formar uma classe média mais ampla, dinâmica e capaz de sustentar o desenvolvimento?

Nossa democracia representa legitimamente inúmeros interesses, mas encontra enorme dificuldade para transformá-los em um interesse maior: o desenvolvimento do país. Foi justamente Ignacy Sachs quem formulou a ideia de desenvolvimento negociado. Não significa que cada setor obtenha integralmente tudo o que deseja. Significa exatamente o contrário: que todos aceitem ceder alguma coisa para que a sociedade inteira avance muito mais. Quando cada grupo negocia apenas a própria fatia, deixa-se de negociar o crescimento do bolo.

É nesse vazio que o ultracrepidarismo prospera, na frustração de um país que não entrega. Daí a frustração procurar uma saída. As redes sociais oferecem esse espaço. O algoritmo identifica esse comportamento, amplia-o e o transforma em um círculo vicioso de engajamento e lucro.

Quem não consegue embarcar no trem do futuro acaba fazendo barulho na plataforma.

Talvez essa seja a imagem mais precisa do Brasil contemporâneo. Em vez de construir trilhos para que mais brasileiros embarquem, discutimos apenas como controlar as plataformas onde eles desabafam. Transparência dos algoritmos, responsabilização por abusos e aperfeiçoamento das regras podem ser necessários, mas nenhuma plataforma criou a desesperança, o endividamento das famílias, a baixa produtividade ou a dificuldade de ascensão social. Apenas transformou essas frustrações em um negócio extraordinariamente eficiente.

Domenico De Masi alertava para o risco do retrocesso cultural quando o ruído encobre a reflexão. Talvez o desafio brasileiro seja justamente o inverso: trocar o ruído por contexto, os sintomas pelas causas, a indignação por um sonho nacional e a disputa permanente por um desenvolvimento negociado, capaz de reconciliar os interesses legítimos de cada grupo com o interesse maior do país. Não é exagero dizer que nossas múltiplas elites desistiram de fazer um projeto de país. Senão, onde ele estaria?

Nenhuma sociedade amadurece vivendo de faz de conta. Países transformam-se quando têm coragem de fazer diagnósticos honestos, negociar o próprio futuro e oferecer aos seus cidadãos aquilo que algoritmo algum consegue fabricar: esperança. Porque o verdadeiro oposto do ultracrepidário não é o especialista. É o cidadão que possa acreditar em uma viagem para o futuro, em um trem chamado Brasil, e possa embarcar nessa plataforma.