Correio da Manhã
Opinião

As dores da pandemia ainda ecoam

As dores da pandemia ainda ecoam

Ninguém gosta de lembrar do que é ruim.

A pandemia já parece distante. As máscaras saíram dos rostos, os boletins desapareceram da televisão, as ruas voltaram a encher. É como se tivéssemos empurrado as dores daquele período para debaixo do tapete.

Mas uma experiência coletiva de medo, luto e isolamento não desaparece apenas porque a vida parece ter voltado ao normal.

Como conseguimos andar de máscara por tanto tempo? Como foi possível nos acostumar com as notícias de morte, com o álcool em gel na entrada dos prédios, com o silêncio das ruas, com o receio de tocar em maçanetas, corrimãos e itens de supermercado?

No Brasil, o medo do vírus conviveu com uma crise política permanente. Discutíamos máscara, vacina, isolamento, número de mortos, tratamento sem eficácia, abertura de comércio, fechamento de escolas. Medidas básicas de proteção passaram a ser lidas como posição política. Quando mais precisávamos de coordenação política, o país conviveu com o conflito.

Houve um momento em que a pandemia inverteu a ordem natural da vida. No início, muitos filhos enterraram seus pais e avós. Depois, com o rejuvenescimento dos casos graves, vieram também os pais que enterraram seus filhos.

Lembro do Francisco, um homem que entrevistei naquele período. Ele foi chamado ao hospital onde sua única filha, de 23 anos, estava internada. Ele acreditava que ela voltaria para casa. Levou roupa nova, sapatos e até maquiagem para que ela saísse dali arrumada.

Mas, ali, diante da equipe médica, recebeu a notícia da morte.

Francisco não se aguentou em pé. Chorou no chão, desolado, diante dos meus olhos. O que eu poderia fazer ali?

Há cenas que não passam junto com o tempo.

A covid-19 matou mais de 700 mil pessoas no Brasil. Mas a contagem oficial não alcança tudo o que se perdeu. Não mede a culpa de quem sobreviveu, a exaustão de quem trabalhou na linha de frente, o luto de quem não pôde se despedir, a ansiedade de quem nunca mais voltou a se sentir seguro.

A pandemia não deixou apenas mortos, órfãos, sequelas físicas e estatísticas. Deixou também marcas psíquicas que ainda não sabemos bem como tratar. A Organização Mundial da Saúde estimou que, no primeiro ano da covid-19, a prevalência global de ansiedade e depressão aumentou 25%.

No Brasil, esse adoecimento teve rosto. Pesquisa divulgada pela Fiocruz apontou que sintomas de ansiedade e depressão atingiram 47,3% dos trabalhadores de serviços essenciais durante a pandemia. Quem segurou parte da vida funcionando também saiu ferido.

A pandemia também mudou o vocabulário do sofrimento. Muita gente passou a procurar terapia, psiquiatra, diagnóstico, explicação para a ansiedade, a insônia, o pânico, a exaustão. Isso importa. Nomear o que se sente é um avanço. Mas há uma diferença entre encontrar um nome para a própria dor e elaborar, como sociedade, o trauma de um período em que a morte virou presença cotidiana.

Há marcas que permaneceram em gestos pequenos. Meus pais, por exemplo, lavam as compras com água e detergente até hoje. Pode parecer excesso, mas talvez seja uma forma de dizer que a pandemia não saiu completamente da rotina de quem a atravessou.

A pandemia saiu do nosso cotidiano antes de sair inteiramente de nós. Permaneceu em sentimentos que ainda temos dificuldade de nomear. A vida parece ter voltado ao normal. Mas não voltou igual.