Correio da Manhã
Opinião

A velhice precisa ser escutada

A velhice precisa ser escutada

Dona Lucy tem falado muito sobre a morte. Aos 87 anos, perdeu os dois filhos mais novos e o marido, Oswaldo, com quem foi casada por seis décadas. Antes disso, já havia visto partir praticamente todas as irmãs. Não é "coisa de velho". É luto acumulado. Dona Lucy é minha avó.

Quando um idoso fala muito dos que se foram, a família pode encarar como repetição, tristeza ou assunto pesado demais para a hora do almoço. Mas há uma idade em que a vida passa a ser feita também de ausências. O que parece repetição pode ser uma forma de dar lugar às perdas que chegaram em sequência.

Nascida nos anos 1930, Dona Lucy cresceu em um Brasil em que aprender a ler não era destino garantido. Em 1940, menos da metade da população de 15 anos ou mais era alfabetizada. Ela não teve a oportunidade de frequentar a escola.

Por não saber ler nem escrever, dependeu do marido para quase tudo que exigisse papel, banco, documento e assinatura. Quando precisava assinar algo, treinava dias antes, aflita. O analfabetismo era um assunto tabu na família. Todos respeitavam. Ninguém tocava no assunto.

Em 2021, já viúva e octogenária, começou a ter aulas de alfabetização com uma professora particular. Foi a forma que encontrou de viver nos tempos atuais sem o companheiro de uma vida inteira.

Hoje, Dona Lucy mora sozinha. Preserva parte importante da própria autonomia: cozinha, cuida da casa e tem a companhia de Amora, sua cachorrinha. Mas morar sozinha não significa estar só. Há sempre um familiar por perto, acompanhando, ajudando, resolvendo o que já não é tão simples.

A velhice trouxe novas dependências. Quando precisa de ajuda, diz que está incomodando. Para ela, pedir ajuda nunca foi fácil.

Segundo o IBGE, pessoas com 60 anos ou mais já representam 41,2% de quem vive sozinho no Brasil; entre as mulheres que moram sozinhas, 56,5% são idosas.

Morar só não é sinônimo de abandono. Mas é uma condição que exige atenção. A Organização Mundial da Saúde criou, em 2023, uma comissão internacional para tratar a solidão e o isolamento social como questões de saúde pública.

Não é exagero. O isolamento social prolongado está associado a impactos na saúde física e mental, na qualidade de vida e na longevidade. Em idosos, pode aumentar os riscos de depressão, declínio cognitivo e morte precoce.

O medo de incomodar é uma das formas mais silenciosas do sofrimento na velhice. Dona Lucy não diz que está triste. Diz que não quer dar trabalho. Multiplicado por milhões de idosos pelo Brasil, isso ajuda a explicar por que tanta dor passa despercebida: em vez de pedir ajuda, muitos preferem se calar.

Esse silêncio também tem gênero. Muitas mulheres chegam à velhice depois de uma vida inteira cuidando dos outros. Dona Lucy cuidou da casa, dos filhos e, mais tarde, da própria mãe, idosa e com Alzheimer — minha bisavó, que tive o privilégio de conhecer. Para mulheres da sua geração, cuidar quase nunca foi escolha. Era apenas o que se fazia. Hoje, fazer o caminho inverso, e aceitar ser cuidada, não tem sido nada fácil.

O Brasil está envelhecendo rápido. Segundo o Censo 2022, o número de pessoas com 65 anos ou mais cresceu 57,4% em doze anos. O país terá cada vez mais idosos vivendo sozinhos, lidando com lutos sucessivos, perda de autonomia e redes familiares reorganizadas.

É justamente a família que costuma ser a primeira a perceber essas mudanças. Um filho acompanha ao médico, um neto leva ao banco, alguém compra remédio, resolve o aplicativo, atende a ligação repetida. Tudo isso importa, mas não deveria ser a única rede de apoio.

O governo federal tem programas voltados à população idosa, como o Envelhecer nos Territórios, que forma agentes de direitos humanos para mapear violações e necessidades de pessoas idosas em municípios brasileiros. Mas o orçamento de maior peso, anunciado há poucos dias, é o Padi Brasil: R$ 500 milhões até 2027 para levar equipes de saúde até a casa de idosos com limitações funcionais. O foco é o corpo que precisa de cuidado, não a mente que sofre.

Pode haver, na ponta, profissionais atentos a esse sofrimento. Mas saúde mental não é prioridade estruturada do programa. Não surpreende. Surpreendente será o dia em que isso mudar no Brasil.

Diante disso, talvez a primeira mudança não dependa de programa nenhum: dependa de escutar. Dona Lucy não é apenas uma senhora que fala muito sobre a morte. É uma mulher que viveu o suficiente para acumular despedidas que muitos de nós ainda não sabemos sequer imaginar.